O actor acaba por não deixar de pensar na impressão causada pela sua pessoa e no efeito cénico total, até por ocasião da mais profunda mágoa, por exemplo, mesmo no enterro do seu filho; chorará ante o seu próprio desgosto e respectivas exteriorizações como sendo o seu próprio espectador. O hipócrita, que desempenha sempre um mesmo papel, acaba por deixar de ser hipócrita; por exemplo, sacerdotes, que, enquanto homens novos, são habitualmente, de modo consciente ou inconsciente, hipócritas, por fim tornam-se naturais e são, então, realmente, sem qualquer simulação, mesmo sacerdotes; ou se o pai não consegue lá chegar, então, talvez, o filho, que se serve do avanço do pai e herda a sua habituação. Se uma pessoa quiser, durante muito tempo e persistentemente, parecer alguma coisa, consegue-o pois acaba por se lhe tornar difícil ser qualquer outra coisa. A profissão de quase toda a gente, até do artista, começa com hipocrisia, com uma imitação a partir do exterior, com um copiar de aquilo que é eficaz. Aquele, que traz sempre a máscara das expressões fisionómicas amistosas, tem de acabar por adquirir poder sobre as disposições anímicas benévolas, sem as quais não é possível forçar a expressão da afabilidade - e, finalmente, por seu turno adquirem estas poder sobre ele: ele é amistoso.
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'
Publicado por pns em abril 28, 2006 09:00 AMqueee palavrasss mais, e tao, sabias estas...para variar,nietzche tinha toda a razao. e se isso ja acontecia no seu tempo, mais do que nunca, a aparencia tem que ser; quase como um principio categorico, de que tem mesmo que ser, nao havendo hipotese, prosseguido, pela verdadeira acepçao do termo sollen, identificado por kant na metafisica dos costumes...:(
acho que desde o prinicpio do sec XX ate ao sec actual ainda nao ultrapassou-se o niilismo. de qualquer forma, é natural que assim aconteça, embora, o futuro seja o desaprecimento gradual das imposiçoes, regulamentaçoes, repressoes, controlo etc, ou seja, tudo aquilo a que o Estado promove e a que propria arrogancia, sobretudo das pessoas da cidade, compactua ;(
Oh personalidade humana! Como podes curvar-te a tamanha sujeição durante tanto tempo...
Afixado por: carolina robalo gouveia em abril 28, 2006 09:25 PMÉ um mau hábito quando passamos a nos ver fora de nós mesmos. Deixamos a sinceridade e todos os nossos atos passam a ser maquinados consoante a expectação alheia. Queremos ver a nós mesmos diante dos outros de forma a agradar e obter boa imagem da parte deles. Formo um ser ideal e passo a forjá-lo em mim mesmo, a custo da perda da minha própria indentidade. Deixo de ser que eu sou, com medo de que o eu verdadeiro, com seus defeitos e fraquezas, não satisfaça o padrão ideal que estabeleci.
Isto vai se tornando um ciclo vicioso, e prosegue minando minhas forças naturais interiores, que procedem do coração. E passo a depender de situações externas para satisfazer minha auto-estima. Torna-se então uma verdadeira tortura para o coração. Pois sua força é reprimida sempre que não corresponde a vontade controlada pelos padrões exigentes da minha auto conduta virtuosa. Este processo forma uma pessoa desvirtuada, mascarada e falsa. Com uma aparência exterior, mas com um grande vazio interior, isto quando não é preenchido pela angústia, medo, e ainda forças maléficas como inveja, hipocrisia, ciúmes, ódio,
egoísmo e desconfiança constante de tudo e todos.
Isto é nos perder a nós mesmo. E somente se mudarmos de atitude e aceitarmos ser quem somos, com todos os defeitos e fraquezas, assim como as virtudes, poderemos então nos encontrar novamente. E revertido este processo destrutivo de auto construção do eu. O Criador é quem forma a cada um como quer. Então, sou aquilo que sou, e está é a melhor forma de ser. Com
toda a simplicidade e humildade.
Não somos aquilo que não mudamos por um motivo gratuito.
E isso nem Estado ou Rousseau algum poderá ausentar a causa humana de sua verdadeira indiferença.