abril 17, 2006

A Alma é o Bem Supremo

Devemos circunscrever o bem supremo à alma: degradá-lo-emos se em vez da melhor parte de nós o associarmos antes à pior, se o pusermos na dependência dos sentidos que nos animais sem fala são bem mais apurados do que no homem. Não devemos atribuir ao corpo o ponto mais alto da nossa felicidade; os bens verdadeiros são aqueles que devemos à razão - bens firmes e duradouros, insusceptíveis de decadência, incapazes de padecerem qualquer decréscimo ou limitação! Os restantes bens são-no somente na opinião do vulgo; na realidade apenas têm de comum o nome com os bens verdadeiros, mas carecem das propriedades que distinguem um «bem» real. Chamemos-lhes antes «utilidades» ou, para usar o termo técnico, «recursos desejáveis», mas sem perder de vista que se trata de «utensílios», não de partes de nós mesmos; tenhamo-los à mão, mas sem esquecer que são exteriores a nós; e mesmo tendo-os à mão atribuamos-lhes um lugar subalterno e secundário, como coisas de que ninguém se deve orgulhar. Há coisa mais estúpida do que nos vangloriarmos de algo que não fizemos? Deixemos que todos esses falsos bens nos caibam em sorte mas sem se colarem a nós de modo a que, se ficarmos sem eles, os vejamos partir sem o mínimo sofrimento. Usemo-los sem nos ufanarmos deles, e usemo-los moderadamente, como algo que nos é confiado apenas transitoriamente. Quem quer que os possua sem o controlo da razão não os conserva por muito tempo; até a própria felicidade, se incontrolada, acaba por tornar-se um fardo! Se confiarmos nesses bens mais do que efémeros, em breve ficaremos sem eles, e ao ficar sem eles sobrevém o desgosto! Raros homens têm sido capazes de suportar com tranquilidade a perda da felicidade; a maioria deles, quando caem por terra as condições que os tornaram eminentes, os mesmos factores que antes os exaltaram ocasionam-lhes agora o abatimento.

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Publicado por pns em abril 17, 2006 11:00 PM
Comentários

Creio que os antigos filósofos gregos,assim como os predecessores romanos, no caso de Sêneca, sempre nós é contemporâneo, não por um sentido ocasional ou mesmo de sapiência ao saber retratar nossas "naturezas" e "defeitos",contudo muito mais por um fator histórico de pensamento ocidental.

Herdamos certamente muitíssimas coisas da tradição ocidental grega e aglutinamos a outras diversas culturas frutos do expansionismo romano,na forma de como se pensavam certos quesitos sociais,econômicos e políticos.

É importante ressaltar que de forma alguma estou reduzindo a importância destes senhores grandes filósofos e de seus geniais pensamentos,mas o interessante é perceber que existe uma certa linearidade ou mesmo "evolução" de pensamento em se considerando a ótica Ocidental,enquanto a Oriental não se deu tanto.

O materialismo parece-nos uma coisa "natural",mas não o é considerando Ocidente e Oriente. De acordo coma concepção Oriental, o aspirante luta pela iluminação espiritual direta, através de exercícios de meditação. O objetivo é alcançar a iluminação no mais curto período de tempo possível. Para levar uma vida meditativa torna-se necessário o afastamento do mundo material, pelo menos até um certo ponto,ou seja, uma espécie de afastamento social mediante a materialização do espírito ou de si,enquanto o ocidente busca a materialização de tudo,menos de si,apesar de haver um certo aspecto de um "afastamento social" pautado nas tecnologias e principalmente no individualismo materializador de todas as coisas possíveis e impossíveis.

É claro que atualmente com a dinamização da globalização,muitos orientais tem se voltado à mentalidade da sociedade grega a seguir o fluxo do pensamento ocidental,mas o espectro do oriente por séculos afins foi exatamente este presente nesta relação mais espirituosa e mística que o racionalismo e simetrismo ocidental.

Desculpem o extenso texto...foi um desabafo.

Afixado por: Phil em maio 2, 2006 05:47 AM

Estes pensadores mereciam ver as suas ideias difundidas com mais reconhecimento.
Seria fantástico que se abordassem textos como este nas escola e que se discutisse com os jovens estas questões, sempre contemporâneas.
As gerações são educadas nas escolas na ausência de discussão do sentido da vida e dos aspectos mais pertinentes na obtenção de objectivos viáveis para ela.
Pena que assim seja...

[www.marceladas.blogspot.com]

Afixado por: Marcelo Melo em maio 6, 2006 05:06 PM
Site Meter