Deveríamos ter sempre diante dos olhos o efeito do tempo e a mutabilidade das coisas, por conseguinte, em tudo o que acontece no momento presente, imaginar de imediato o contrário, portanto, evocar vivamente a infelicidade na felicidade, a inimizade na amizade, o clima ruim no bom, o ódio no amor, a traição e o arrependimento na confiança e na franqueza e vice-versa. Isso seria uma fonte inesgotável de verdadeira prudência para o mundo, na medida em que permaneceríamos sempre precavidos e não seríamos enganados tão facilmente. Na maioria das vezes, teríamos apenas antecipado a acção do tempo. Talvez para nenhum tipo de conhecimento a experiência seja tão imprescindível quanto na avaliação justa da inconstância e mudança das coisas. Ora, como cada estado, pelo tempo da sua duração, existe necessariamente e, portanto, com pleno direito, cada ano, cada mês, cada dia parecem querer conservar o direito de existir por toda a eternidade. Mas nada conserva esse direito, e só a mudança é permanente.
Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direcção que a mudança tomará. Por outro lado, o que via de regra faz os homens tomarem o estado provisório das coisas ou a direcção do seu curso como permamente é o facto de terem os efeitos diante dos olhos, sem todavia entender as suas causas. Mas são estas que trazem o germe das mudanças futuras, enquanto os efeitos, únicos existentes para os olhos, nada contêm de parecido. Os homens apegam-se aos efeitos e pressupõem que as causas desconhecidas, que foram capazes de produzi-los, também estão na condição de mantê-los. Nesse caso, quando erram, têm a vantagem de fazê-lo sempre em uníssono. Sendo assim, a calamidade que, em decorrência desse erro, acaba por atingi-los, é sempre universal, enquanto a cabeça pensante, caso erre, ainda permanece sozinha. Diga-se de passagem que temos aqui uma confirmação do meu princípio de que o erro nasce sempre de uma conclusão da consequência para o fundamento.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em maio 5, 2006 09:00 AMDengoso esse menino.
Afixado por: Criticize_ME em maio 14, 2006 02:29 AMSchopenhauer chama a nossa atenção para a quase inevitabilidade da mudança, causada pela mutabilidade das coisas e pelo efeito do tempo.
Por certo assim ocorre na maioria das vezes, pois, como já disse outro sábio, um tanto cinicamente: "o homem é o homem e suas circunstâncias". Ter em mente alerta tais premissas é deveras útil, por prudente nos tornar.
Contudo, tal comportamento, seguido incessantemente, há de criar mentes tão desconfiadas e tensas que delas se afastarão os que só desejam-nos demonstrar amizade, compreensão ou afeto. Equilíbrio é, por decorrência, o que devemos perseguir. Que é o "chato", o aborrecido, o "estraga-prazeres" senão o que comporta-se como "adulto-padrão", em uma festa destinada a todos divertir?