maio 03, 2006

Manufacturamos Realidades

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.
Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua a ser a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'

Publicado por pns em maio 3, 2006 09:00 AM
Comentários

cestas

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Afixado por: biel em maio 3, 2006 02:33 PM

Cada um de nós possuímos um mundo interior extremamente pessoal, o qual defendemos a todo custo... O que interpretamos fora é apenas o resultado do que já possuímos em nosso mundo interior...

Afixado por: Deusman em maio 3, 2006 02:46 PM

A realidade é o que nos parece ser.

Afixado por: pp em maio 3, 2006 05:10 PM

Não é possivel conceber o desconhecido como desconhecido, porque só somos de capazes de pensar com base no que conhecemos e, como tal, projectamos no desconhecido somente aquilo que conhecemos.
A atribuição de nomes muda efectivamente cada objecto porque o aprisiona a uma ideia e incapacita a sua órbita de sentidos.

[www.marceladas.blogspot.com]

Afixado por: Marcelo Melo em maio 12, 2006 09:29 AM

Nada é o que é.
Co-reprodução do pensamento Lavousieriano -Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
A introversão está em todo lugar.

Afixado por: Criticize_ME em maio 14, 2006 02:18 AM
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