maio 18, 2006

O Que Mais Contribui para a Felicidade

Já reconhecemos em geral que aquilo que somos contribui muito mais para a felicidade do que aquilo que temos ou representamos. Importa saber o que alguém é e, por conseguinte, o que tem em si mesmo, pois a sua individualidade acompanha-o sempre e por toda a parte, e tinge cada uma das suas vivências. Em todas as coisas e ocasiões, o indivíduo frui, em primeiro lugar, apenas a si mesmo. Isso já vale para os deleites físicos e muito mais para os intelectuais. Por isso, a expressão inglesa to enjoy one's self é bastante acertada; com ela, dizemos, por exemplo, he enjoys himself at Paris, portanto, não «ele frui Paris», mas «ele frui a si em Paris». Entretanto, se a individualidade é de má qualidade, então todos os deleites são como vinhos deliciosos numa boca impregnada de fel.
Assim, tanto no bem quanto no mal, tirante os casos graves de infelicidade, importa menos saber o que ocorre e sucede a alguém na vida, do que a maneira como ele o sente, portanto, o tipo e o grau da sua susceptibilidade sob todos os aspectos. O que alguém é e tem em si mesmo, ou seja, a personalidade e o seu valor, é o único contributo imediato para a sua felicidade e para o seu bem-estar. Tudo o resto é mediato.

Por conseguinte, o seu efeito pode ser dirimido, mas o da personalidade, nunca. Por isso, a inveja mais irreconciliável, e que, ao mesmo tempo, é dissimulada do modo mais cuidadoso possível, é aquela dirigida contra os méritos pessoais. Ademais, só a qualidade da consciência é permanente e constante, e a individualidade faz efeito de forma contínua e duradoura, mais ou menos a cada instante. Tudo o resto, pelo contrário, faz efeito apenas de modo temporário, ocasional e passageiro, além de ser submetido a mudanças e vaiações. Por isso, Aristóteles diz: A natureza é perene, não o dinheiro. Nisso se baseia o facto de suportarmos com mais resignação uma infelicidade que nos chega inteiramente do exterior do que uma cuja culpa caiba a nós mesmos. Pois a sorte pode mudar, mas a própria índole, nunca. Portanto, os bens subjectivos, tais como um carácter nobre, uma mente capaz, um temperamento feliz, um ânimo jovial e um corpo bem constituído e completamente saudável - logo, de modo geral, a mente sadia em corpo sadio (Juvenal) - são o que há de primário e mais importante para a nossa felicidade; por isso, deveríamos estar muito mais aplicados na sua promoção e conservação do que na posse de bens e honra exteriores.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Publicado por pns em maio 18, 2006 09:00 AM
Comentários

No fundo está-se a falar da percepção que cada um tem de si próprio e da imagem/ideia que pensamos que os outros têm de nós.

Afixado por: helder.pais em maio 18, 2006 04:26 PM

Saber olhar um espelho e ler a alma do reflexo, isso sim é importante...

Afixado por: Lagoa_Azul em maio 18, 2006 09:01 PM

"(...)se a individualidade é de má qualidade, então todos os deleites são como vinhos deliciosos numa boca impregnada de fel." A lembrança vem a calhar, pois é muito mais cômodo procurar outros vinhos para provar do que limpar a própria boca.

Afixado por: andré em maio 18, 2006 10:39 PM

A lição que daqui tiro é que, é mais importante Ser do que Ter...

Afixado por: Incognoscível em maio 20, 2006 09:42 PM

Como são atuais os ensinamentos de Schopenhauer. Bom seria se tivéssemos o bom senso de segui-los. Mas, a vaidade e arrogancia estão a cegar mesmo aqueles de bom senso.A humanidade talvez volte-se para estes ensinamentos antigos, bem como para a vivência familiar e religiosa, sem perder as conquistas obtidas.

Afixado por: LUIZ SEITI NODA em maio 21, 2006 03:42 AM

Estamos aperder o que realmente somos enfuncao deste ou daquilo que possuimos e nos esquecemos da nossa personalidade e do nosso valor...

Afixado por: Tingeira em maio 21, 2006 06:12 AM

Discordo de ti,meu caro Schopenhauer,ou ao menos concordo em parte.
Certamente, quanto ao dinheiro, é por isso que este tem sido tão bem inserido em nossa nossa sociedade, fazendo-nos tão bem a ponto de naturalizarmos mortes por miséria,fome e demais.
Daí sermos tão desejadamente instintivos em situações extremas,de um ego tão acima que só a morte em sua atuação solapa-nos para as covas a ser devorados merecidamente por vermes,pondo-nos no nosso lugar merecido para os que testemunham-na.
Contudo muitos choram de início,mas dias depois continuam a agir como eram.
Essa mesquinhandagem,resultado de uma personalidade retardada e totalmente de si,não gera mais que infelicidade. Daí o motivo de tantos seres que poderíamos chamar de felizes,dados as suas belezas, riquezas e atitudes de si,serem no entanto,pessoas profundamente problemáticas e insatisfeitas.
Há de haver um equilíbrio e reconhecimento de si, antes de se buscar qualquer meta,mesmo que Dionisíaca.

Afixado por: Ehcsztein em maio 28, 2006 10:15 PM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?






Site Meter