junho 08, 2006

A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o tédio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: à medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, expõe uma oscilação mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a privação geram a dor; em contrapartida, a segurança e a abundância geram o tédio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocrático, pelo contrário, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o tédio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indivíduo, a susceptibilidade para um encontra-se em proporção inversa à susceptibilidade para o outro, já que ela é determinada pela medida das suas forças espirituais. Com efeito, a obtusidade do espírito está, em geral, associada à da sensação e à ausência da excitabilidade, qualidades que tornam o indivíduo menos susceptível às dores e aflições de qualquer tipo e intensidade. Por outro lado, dessa mesma obtusidade espiritual resulta aquela vacuidade interior estampada num sem-número de rostos, que se trai por uma atenção sempre activa, dada a todos os acontecimentos do mundo exterior, mesmo os mais ínfimos. Tal vacuidade é a verdadeira fonte do tédio e leva sempre a ansiar por estímulos exteriores, para colocar o espírito e a mente em movimento mediante qualquer meio.

Sendo assim, na escolha de tais meios, essa vacuidade não é fastidiosa, como atestam a mesquinhez das distracções às quais as pessoas recorrem, o tipo de sociabilidade e conversação que procuram, bem como o grande número de ociosos e curiosos. É principalmente dessa vacuidade interior que se origina a busca por reuniões, distracções, divertimentos e luxo de todo o tipo, busca que conduz tantas pessoas à dissipação e depois à miséria. Nada preserva tanto desse desvio quanto a riqueza interior, a riqueza do espírito. Pois esta, quanto mais se aproxima da eminência, menos espaço deixa para o tédio. A actividade inesgotável dos pensamentos, o seu jogo sempre renovado diante dos diversos fenómenos do mundo interior e exterior, a força e o impulso para combinações sempre variadas com eles, colocam a cabela eminente, descontados os momentos de cansaço, totalmente além do alcance do tédio. Mas, por outro lado, a inteligência intensificada tem por condição imediata uma sensibilidade elevada, e por raiz uma maior veemência da vontade, portanto da passionalidade. Da união daquela com estas resulta, então, uma intensidade muito maior de todos os afectos e uma sensibilidade elevada em face das dores espirituais e mesmo físicas, bem como uma impaciência maior diante de qualquer obstáculo, ou até de simples incómodos.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Publicado por pns em junho 8, 2006 09:00 AM
Comentários

Pois muito bem:enquanto uns buscam pela sua subsistência, outros, não tendo esta nacessidade, buscam pelo futil,criando assim um vazio nas suas vidas.
Só de grandes pensadores para saberem tão bem transmitir a falta de inteligencia do ser Humano

Afixado por: madalena em junho 8, 2006 11:31 PM

Sem dúvida que o "panorama mais amplo mostra-nos a dor e o tédio como os dois inimigos da felicidade humana". Quem o diz é Schopenhauer.Esta é a primeira vez que entro no citador. já acedi várias vezes ao site, mas hoje, particularmente esta noite, resolvi citar um dos nossos maiores poetas portugueses. por mais avisos que tenha do psiquiatra e familiares em colocar de parte a poesia de Mário de Sá-Carneiro, tal como o fascínio que tenho por Virginia Woolf,não consigo. fecho os olhos e as palavras passam por entre a escuridão. a minha escuridão, a minha solidão, pelo meu tédio, pela minha dor... a "borderline", a depressão, a fixação pelos outros - os que mais amo e os que mais odeio - permite-se,inevitavelmente, que chegue ao desespero. desespero pela minha vida. a inútilidade em que se transformou. aqui quero citar Mário de Sá-Carneiro: "Dispersão" e "Fim".
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã, nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem. (...)

in Dispersão


"Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro..."

in Fim

Não achem estranheza ou indignação por tal citação. aqui posso FALAR. como diz o poeta "eu não sou eu nem o outro, sou qualquer coisa de intermédio"... mas não sei quem sou. nunca o saberei. é tarde demais para descubri-lo. cada vez mais me sinto atrofiada nos meus pensamentos, na minha abstinência... dias de luta contra o tédio, a inércia, a inutilidade... quantos? talvez anos. não conseguirei nunca alcançar a virtude de estar sóbria, aberta para a vida, nos meus escassos 30 anos.

Afixado por: susana manteigas em junho 15, 2006 02:31 AM

Sem dúvida que o "panorama mais amplo mostra-nos a dor e o tédio como os dois inimigos da felicidade humana". Quem o diz é Schopenhauer.Esta é a primeira vez que entro no citador. já acedi várias vezes ao site, mas hoje, particularmente esta noite, resolvi citar um dos nossos maiores poetas portugueses. por mais avisos que tenha do psiquiatra e familiares em colocar de parte a poesia de Mário de Sá-Carneiro, tal como o fascínio que tenho por Virginia Woolf,não consigo. fecho os olhos e as palavras passam por entre a escuridão. a minha escuridão, a minha solidão, pelo meu tédio, pela minha dor... a "borderline", a depressão, a fixação pelos outros - os que mais amo e os que mais odeio - permite-se,inevitavelmente, que chegue ao desespero. desespero pela minha vida. a inútilidade em que se transformou. aqui quero citar Mário de Sá-Carneiro: "Dispersão" e "Fim".
"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã, nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem. (...)

in Dispersão


"Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro..."

in Fim

Não achem estranheza ou indignação por tal citação. aqui posso FALAR. como diz o poeta "eu não sou eu nem o outro, sou qualquer coisa de intermédio"... mas não sei quem sou. nunca o saberei. é tarde demais para descubri-lo. cada vez mais me sinto atrofiada nos meus pensamentos, na minha abstinência... dias de luta contra o tédio, a inércia, a inutilidade... quantos? talvez anos. não conseguirei nunca alcançar a virtude de estar sóbria, aberta para a vida, nos meus escassos 30 anos.

Afixado por: susana manteigas em junho 15, 2006 02:35 AM

A sensibilidade aguçadíssima de Schopenhauer provocou seu suicídio mental.

Afixado por: Ehcsztein em junho 23, 2006 05:12 AM

A dor e o tédio andam sempre juntos e revelam a falta desse valioso bem que é a riqueza de espírito. Por exemplo a poesia, e a de Mário de Sá-Carneiro é enriquecedora.
Não resisto a escrever este poema de Eugénio de Andrade: "Urgentemente"
É urgente o Amor
é urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras
Ódio, solidão, alguns lamentos
muitas espadas

É urgente inventar alegria
multiplicar os beijos, as searas
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros
e a luz impura até doer
É urgente o Amor
É urgente permanecer

Afixado por: alberto em junho 27, 2006 05:27 PM

Essa citação me tocou...
Concordo plenamente com o antagonismo analisado pelo autor. É um alívio ver traduzido em palavras nossos sentimentos. No meu caso, o tédio.
Acho que preciso descobrir algo que me dê prazer e ao mesmo tempo um crescimento espiritual para eliminar esse vazio que permite a instalação do tédio em alguns dias de minha vida (como o de hoje).

Afixado por: Alessandra em outubro 2, 2006 11:49 PM

Sem tédio não há criação.

Afixado por: Ehcsztein em outubro 3, 2006 04:10 PM

A filosofia nasceu do ócio grego

Afixado por: Lauri em outubro 14, 2006 02:50 PM

Na minha opinião o Schoppenauer está errado. Ele diz que, geralmente, a obtusidade de espirito dá ao ser essa sensação de vacuidade, o que o leva a procurar incessantemente os estimulos exteriores e qualquer tipo de situação, até mesmo as mais mesquinhas, somente para colmatar o tédio. Contudo, se pensarmos em Pessoa, ou mesmo em Sà Carneiro, vemos que o tedio também está presente e que não podemos falar de aridez de espirito, porque, como está provado, eles não a tinham. Todos, de alguma forma, estão susceptiveis ao tédio. Nietzsche tinha grandes aborrecimentos. Na minha opinião, as mais das vezes, são precisamente aqueles que têm obtusidade de espirito que estão menos inclinados ao aborrecimento, precisamente porque são capazes de sentir e de gostar de bastantes coisas que um espirito elevado certamente reprovaria.Emerson dizia que «sábio é aquele que sabe preencher a hora» e eu concordo com ele, embora, ás vezes, na solidão, seja muito dificil preencher o deserto do tédio.Quanto á dor, não sei porque diz que é inversa ao tedio, e que aqueles mais propensos a um estão mais distantes de outros. talvez o tédio seja também uma forma de dor, assim como a escuridão é ausencia de luz...

Afixado por: Campos em maio 25, 2007 12:52 PM
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