Aqueles que disseram ser o prazer o sumo bem, viram bem a posição vergonhosa em que o colocaram. Negam eles também que a virtude possa ser separada do prazer e dizem que ninguém pode viver honestamente sem viver agradavelmente, tal como ninguém pode viver agradavelmente sem viver honestamente. Não vejo como elementos tão diversos podem ser postos lado a lado. Porque não se poderá, pergunto-vos, separar a virtude do prazer? Visto que o princípio de todo o bem é a virtude, será ela também a raiz de tudo o que vós amais e desejais? Todavia, se a virtude e o prazer não fossem coisas distintas, não se compreenderia por que razão há umas coisas que são agradáveis, mas desonestas, e outras que são honestíssimas, mas penosas e causadoras de sofrimento.
Acrescenta ainda que, enquanto o prazer se coaduna com uma vida vergonhosa, a virtude não admite uma má vida, e quantos há que são infelizes não por não terem prazer, mas precisamente por causa do prazer, o que não aconteceria se conjugassem o prazer com a virtude, a qual existe muitas vezes sem ele, sem nunca precisar dele para existir.
Porquê confundir coisas tão diversas ou mesmo opostas? A virtude é algo elevado, excelso e nobre, invicto e infatigável; o prazer é baixo, servil, fraco e caduco, o seu lugar são os prostíbulos e as tabernas. A virtude, encontrá-la-ás no templo, no fórum, na cúria, resistindo como um muro, poeirenta, de pele tisnada e mãos calosas; o prazer geralmente esconde-se e procura as trevas, circulando pelos banhos, pelas termas e pelos locais que receiam a polícia: mole, fraco, ensopado em vinho e em perfumes, pálido ou todo pintado, entufado de unguentos como um cadáver.
O sumo bem é imortal, desconhece a morte e não tem saciedade nem arrependimento: com efeito, a mente recta nunca muda, nunca tem ódio por si própria, nem se desvia da vida melhor; o prazer, por outro lado, quando alcança o seu ponto mais alto, extingue-se; o seu terreno é limitado e, por isso, rapidamente o esgota; entedia-se e desfalece após o primeiro ímpeto. Não pode haver certeza naquilo que, por natureza, está em movimento: por isso, nada pode haver de substancial naquilo que rapidamente vem e vai, perecendo com o seu próprio usufruto; de facto, o prazer conduz ao ponto em que acaba e tem o seu fim à vista logo a partir do seu começo.
Séneca, in 'Da Vida Feliz'
Publicado por pns em junho 19, 2006 10:00 PMOs estóicos sempre nos ensinaram muito. Descartes e Schopenhauer que o digam.
Afixado por: Paula Ignácio em junho 20, 2006 11:40 PMO Prazer carnal ou material é vazio por essência, pois ao seu término sempre gera uma frustação, e seu excesso gera mais angústia ainda, e sempre deixa arrependimento, mesmo que inconscientimente, a virtude ao contrário liberta o homem, e a sua prática sempre gera felicidade e nunca arrependimento, além do que a virtude aproxima o homem de seu criador.
Afixado por: Jefferson Roque dos Santos em junho 27, 2006 11:06 AMVirtude e prazer se combinam.
Se virtude gerasse apenas coisas positivas,não haveria tanta injustiça para aqueles que não mereciam e lá estavam no caminho virtuosamente seguindo.Estava fazendo o bem,mas ninguém percebia ou se importava.Não há o reconhecimento em muitos casos e às vezes serve para gerar apenas descontentamento para uns outros,que descontam neste.
E lá jaz o virtuoso no caminho lúgubre da sua própria visão,como um mártir que virtuosamente faz o bem em troca de sofrimento ou de nada.
O prazer é viciante,mas é a forma que o homem tem de fugir da realidade e de si,empurrando a vida com a barriga fazendo pequenas coisas que servem apenas para sentir o gozo e recorrer futuramente a memória,sucessivamente, entre traumas e alegrias até o dia final de sua morte.
Esse seu conceito meu ignoto amigo kagero é epicurista, com certeza Seneca e outros estóicos discordam dessa sua opinião, assim como eu, pois no Estoicismo a Virtude esta intimamente ligada com a Felicidade, diferente do Prazer que é o oposto da Virtude, logo esse gera infelicidade porque não possue substância, mesmo que gere uma "satisfação" momentânea.
Afixado por: Jefferson Roque dos Santos em junho 27, 2006 11:57 PM