julho 21, 2006

A Acção Mais Degradada

A acção mais degradada é a daquele que não age e passa procuração a outrem para agir - a dos frequentadores dos espectáculos de luta e a dos consumidores da literatura de violência. Ser herói e através de outrem, ser corajoso em imaginação, é o limite extremo da acção gratuita, do orgulho ou da vaidade que não ousa. Corre-se o risco sem se correr, experi­menta-se como se se experimentasse, colhe-se o prazer do triunfo sem nada arriscar. E é por isso que os fIlmes de guerra, do heroísmo policial, de espionagem, têm de acabar bem. Por­que o que aí se procura é justamente o sabor do triunfo e nâo apenas do risco. O gosto do risco procura-o o herói real, o jogador que pode perder. Mas o espectador da sua luta, degra­dado na sedução da acção, acentua a sua mediocridade no não poder aceitar a derrota, no fingir que corre o risco mesmo em ficção, mas com a certeza prévia de que o risco é vencido. O que ele procura é a pequena lisonja à sua vaidade pequena, a figuração da coragem para a sua cobardia, e só a vitória do herói a quem passou procuração o pode lisonjear.

E se o herói morre em grandeza, há o prazer ainda de o espectador estar vivo para saborear a coragem do que morreu e a não pode já saborear. A vida do herói estende-se assim para além da sua morte onde a espera o espectador para se investir da glória que lhe coube e ele já não pôde gozar. É de dentro da vida e do conforto que o espectador da coragem saboreia o prazer da coragem que não tem. Daí às vezes a ilusão de que também ele poderia enfrentar os mesmos riscos, se os enfrentasse. O que lhe fica à superfície de toda a acção é o gosto dessa acção e não a dificuldade de a realizar. Daí que na realidade ele pudesse talvez atirar-se a essa acção, se tudo fosse possível efectivar-se num momento - no momento em que não teve tempo ainda de conhecer o que aí se esconde, no momento em que não teve tempo de saber que não era corajoso. Daí que num comício de heroísmo o heroísmo seja fácil e os heróis voluntários se possam recrutar aos montôes: a dureza com que se conquista esse heroísmo não se vê sob os braços erguidos que o festejam...

Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'

Publicado por pns em julho 21, 2006 11:00 PM
Comentários

Viver as vitórias de quem se gosta é saudável e natural, mas, compactuar com o heroímo alheio do desconhecido, não será antes uma demonstração ficticía de uma postura politicamente correcta e generalizada aceite pela sociedade, como forma de ocultar o ciúme pelo acto heroíco revelado ?

Afixado por: Tiago Brás em julho 22, 2006 10:47 PM

Excelente reflexão!

Afixado por: Tiago em julho 22, 2006 10:49 PM

Tiago expôs algo ao qual eu exatamente ia tratar a respeito sobre a sua aproximação íntima com ele(a) antes de ser herói. As coisas mudam. Intitulando todas as ações com um interesse, a ação gratuita serviria como um interesse não material mas passional,numa atitude de fortalecer os laços. Nas cenas sem esta aproximação pessoal,aí sim pode-se chamar de egoístas apesar de a denominação ter que ser feita de forma cautelosa.
Infelizmente estes heróis de que temos lembrança são nada mais nada menos que pessoas que lutaram por suas vidas diante de suas dificuldades tentando ou sendo impelida a extremas atitudes aos quais apenas os líderes da nação deveriam ser gratos,já que os interesses foram preponderantemente mais deles que da própria população,fruto de uma conversão através da mídia.
ALém disso, vale ressaltar que caso estivesse vivo não seria um herói tão importante agora morto. É o prêmio que fornecem às vidas acabadas. Os heróis mortos se soubessem disso sentiriam-se raivosos pela honra que lhe custou a vida para objetivos que a longo prazo foram nulos na medida que o verdadeiro mentor morre e o objetivo foi o dele apenas e nunca da nação. Assim é feita a História....

Afixado por: Phil em julho 24, 2006 11:28 PM
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