julho 25, 2006

Nenhum Homem Cruel é Cruel na Medi­da em que o Maltratado Julga

Quando o rico ti­ra um pertence ao pobre (por exemplo, um príncipe que tira a amante ao plebeu), então gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta­mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele não sente de modo algum tão profunda­mente o valor de um único pertence, porque está ha­bituado a ter muitos: portanto, não se pode trans­por para o espírito do pobre e não comete tal uma injustiça tão grande como este julga. Ambos têm um do outro uma concepção errada. A injustiça do poderoso, a que mais indigna na História, não é as­sim tão grande como parece. O mero sentimento hereditário de ser um ser superior, com direitos su­periores, torna uma pessoa bastante fria e deixa-lhe a consciência tranquila: até todos nós, se a distância entre nós e um outro ente for muito grande, já não sentimos absolutamente nada de injusto e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso.

Assim, não é sinal de maldade em Xerxes (a quem mesmo todos os Gregos descrevem como eminente­mente nobre) quando ele tira a um pai o seu filho e o manda esquartejar, porque este havia manifestado uma inquieta e ominosa desconfiança em relação a toda a expedição militar: neste caso, o indivíduo é eliminado como um insecto desagradável, ele está demasiado baixo para poder provocar por mais tempo sentimentos importunos num soberano uni­vsal. Sim, nenhum homem cruel é cruel na medi­da em que o maltratado julga; a sua noção da dor não é a mesma que o sofrimento deste. Passa-se o mesmo com o juiz injusto, com o jornalista que, com pequenas desonestidades, desorienta a opinião pública. Causa e efeito estão, em todos estes casos, rodeados por grupos de sentimentos e de pensamen­tos diferentes; enquanto que, involuntariamente, se pressupõe que réu e queixoso pensam e sentem da mesma maneira e, em conformidade com esse pres­suposto, se mede a culpa de um pelo sofrimento do outro.

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

Publicado por pns em julho 25, 2006 10:00 PM
Comentários

Provavelmente seja a crueldade um dos instintos exercidos com a maior naturalidade pelo homem.Edificios explodindo, cidades sendo incendiadas e bombardeadas, restos humanos calcinados e destroçados,crianças em estado de cheque, tudo assistido confortavelmente e em tempo real na nossa telinha televisiva.Tudo para o bem da humanidade.

Afixado por: nilson em julho 26, 2006 12:54 AM

Há muitos anos que leio Nietzsche e de cada vez o acho mais cruel. Morreu louco e. essa loucura não teria nada a ver com a crueldade do seu pensamento. Genial e insuport'avel...

Afixado por: Manuel Barbosa em julho 26, 2006 10:25 AM

cada um de nós acha que pode pensar segundo os códigos em que cresceu ou foi moldado.Mas há valores que não tem nada a ver com esses modelos de educação.É por isso que sou agnóstica e é por isso que penso que o Nitsche morreu louco e é por isso que acho que mais cedo ou mais tarde o Bush o Blair o Durão Barroso( o nosso sensivel Cherne)... e todos os que se acham possuidores de isenções de culpa ,vão sentir que são culpados,ou alguem vai ser capaz de lhes fazer sentir.Porque há valores que são comuns a todos .O respeito pelos outros e a honra de se ser humano ,o saber que a nossa liberdade acaba onde começa a do meu vizinho Estes são valores comuns a todos os credos e estratégias.Acredito que há sempre um momento em que se sente o mal que se fez.Esses nitzches que por aí proliferam constatam mas não conseguem ir alem disso e depois...lixam-se!

Afixado por: lira em julho 26, 2006 02:08 PM

cada um de nós acha que pode pensar segundo os códigos em que cresceu ou foi moldado.Mas há valores que não tem nada a ver com esses modelos de educação.É por isso que sou agnóstica e é por isso que penso que o Nitsche morreu louco e é por isso que acho que mais cedo ou mais tarde o Bush o Blair o Durão Barroso( o nosso sensivel Cherne)... e todos os que se acham possuidores de isenções de culpa ,vão sentir que são culpados,ou alguem vai ser capaz de lhes fazer sentir.Porque há valores que são comuns a todos .O respeito pelos outros e a honra de se ser humano ,o saber que a nossa liberdade acaba onde começa a do meu vizinho Estes são valores comuns a todos os credos e estratégias.Acredito que há sempre um momento em que se sente o mal que se fez.Esses nitzches que por aí proliferam constatam mas não conseguem ir alem disso e depois...lixam-se!

Afixado por: lira em julho 26, 2006 02:08 PM

cada um de nós acha que pode pensar segundo os códigos em que cresceu ou foi moldado.Mas há valores que não tem nada a ver com esses modelos de educação.É por isso que sou agnóstica e é por isso que penso que o Nitsche morreu louco e é por isso que acho que mais cedo ou mais tarde o Bush o Blair o Durão Barroso( o nosso sensivel Cherne)... e todos os que se acham possuidores de isenções de culpa ,vão sentir que são culpados,ou alguem vai ser capaz de lhes fazer sentir.Porque há valores que são comuns a todos .O respeito pelos outros e a honra de se ser humano ,o saber que a nossa liberdade acaba onde começa a do meu vizinho Estes são valores comuns a todos os credos e estratégias.Acredito que há sempre um momento em que se sente o mal que se fez.Esses nitzches que por aí proliferam constatam mas não conseguem ir alem disso e depois...lixam-se!

Afixado por: lira em julho 26, 2006 02:09 PM

cada um de nós acha que pode pensar segundo os códigos em que cresceu ou foi moldado.Mas há valores que não tem nada a ver com esses modelos de educação.É por isso que sou agnóstica e é por isso que penso que o Nitsche morreu louco e é por isso que acho que mais cedo ou mais tarde o Bush o Blair o Durão Barroso( o nosso sensivel Cherne)... e todos os que se acham possuidores de isenções de culpa ,vão sentir que são culpados,ou alguem vai ser capaz de lhes fazer sentir.Porque há valores que são comuns a todos .O respeito pelos outros e a honra de se ser humano ,o saber que a nossa liberdade acaba onde começa a do meu vizinho Estes são valores comuns a todos os credos e estratégias.Acredito que há sempre um momento em que se sente o mal que se fez.Esses nitzches que por aí proliferam constatam mas não conseguem ir alem disso e depois...lixam-se!

Afixado por: lira em julho 26, 2006 02:09 PM

A originalidade do pensamento de Nietzsche, consiste mesmo em determinar uma concepção radical e excepcional da vontade humana teorizada no seu heroíco Super-Homem. Este Super-Homem, é um ser livre dos dogmas cristãos que pregam a piedade, a humildade, e da cultura socrático-alexandrina da decadência em que vive a cultura ocidental.Não é por acaso que Nietzsche ao afirmar que o Homem cruel não é tão cruel como o maltratado julga, faz-me lembrar um pouco Hitler, pois este no seu Mein Kampf, auto intitulou-se a reencarnação do Super-Homem Nietzscheano. Um Homem opressor nunca está isento de responsabilidade pelos seus crimes, e se um dia se aperceber que estava errado, viverá para sempre em estado de culpa e auto-perseguição como aconteceu com muitos ex-nazis, e acontecerá com muitos destes ditadores modernos e aqueles que dizem fazer as coisas em nome da democracia, visando sobretudo interesses económicos, através de guerras sangrentas que causam a destruição de países e a morte de milhões de seres humanos no mundo.

Afixado por: Vitor em julho 26, 2006 03:33 PM

(…)
E por nos sociabilizarmos demasiado em nossa exterioridade, atraiçoamos nosso interior, enganando-nos por uma moral que nos é exterior, a contrariarmos essa moral interior.
(…)
Vivemos assim, em nossos corpos tratando-os como produtos e não como seres dotados de pensamento. Consumimos e somos consumidos, somos coisas, que podem ser usadas como luxo e como lixo.
(…)
E diz-se com toda a facilidade, «com o mal dos outros posso eu bem!», «a vida é um jogo», «enquanto há vida, há luta!», «querer é poder», «a guerra é um mal necessário», pois! E a escravidão, agora dita de mão-de-obra barata, também é um mal necessário, «o aborto é um mal necessário» e são afinal tantos os males necessários, que nos estamos a vender ao mal.
(…)
Mas sabendo que tudo está assim tão mal, ainda assim conseguimos viver uns com os outros, às vezes bem mal é certo! Mas porquê?
(…)
Na felicidade não existe regras de «poder», é dar a cuidar do outro ou dos outros, sem «poder», sem autoridade, sem imposição. E muito se fala dos melhores momentos da vida, são os mais simples, porquê? Porque se dá e recebe sem esperar nada, é o prazer de dar primeiro aliado ao desejo de se ser feliz, não existem hierarquias de «poder», existe sim, afectos aliados à beleza de se ser num contínuo crescimento e engrandecimento do Ser.
(…)
Excertos:
http://ecultura.sapo.pt/Anexos/«A%20CONSCIENTE%20NEGLIGÊNCIA%20DO%20CORPO».pdf


Afixado por: Alice em julho 26, 2006 07:29 PM

(…)
E por nos sociabilizarmos demasiado em nossa exterioridade, atraiçoamos nosso interior, enganando-nos por uma moral que nos é exterior, a contrariarmos essa moral interior.
(…)
Vivemos assim, em nossos corpos tratando-os como produtos e não como seres dotados de pensamento. Consumimos e somos consumidos, somos coisas, que podem ser usadas como luxo e como lixo.
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E diz-se com toda a facilidade, «com o mal dos outros posso eu bem!», «a vida é um jogo», «enquanto há vida, há luta!», «querer é poder», «a guerra é um mal necessário», pois! E a escravidão, agora dita de mão-de-obra barata, também é um mal necessário, «o aborto é um mal necessário» e são afinal tantos os males necessários, que nos estamos a vender ao mal.
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Mas sabendo que tudo está assim tão mal, ainda assim conseguimos viver uns com os outros, às vezes bem mal é certo! Mas porquê?
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Na felicidade não existe regras de «poder», é dar a cuidar do outro ou dos outros, sem «poder», sem autoridade, sem imposição. E muito se fala dos melhores momentos da vida, são os mais simples, porquê? Porque se dá e recebe sem esperar nada, é o prazer de dar primeiro aliado ao desejo de se ser feliz, não existem hierarquias de «poder», existe sim, afectos aliados à beleza de se ser num contínuo crescimento e engrandecimento do Ser.
(…)
Excertos:
http://ecultura.sapo.pt/Anexos/«A%20CONSCIENTE%20NEGLIGÊNCIA%20DO%20CORPO».pdf

Afixado por: Alice em julho 26, 2006 07:31 PM

Muchos folosofos han tentado dar repuestas a las acciones humanas que tienen como principal características la subjetividad de cada uno y de cada época, para mi la mejor de estas tentativas fue dada por Emanuel Kant cuando in "Fundamentação da metafísica dos costumens" afirmou que para alcanzar una acción moral verdaderamente buena tenemos que agir con una máxima que queramos se torne una lei universal, o sea tentar preguntar-se si esta ou aquella acción sera deseable que todos las practiquem y aqui encontraremos la respuesta sobre la validad desta acción.

Afixado por: Yuliet em julho 27, 2006 12:20 PM

O homem é banhado desse exagero ficcional.Há algo neles que os motivam a querer mais aventura,mais fuga nesse exagero,por isso é o bicho que mais se contradiz.

Afixado por: Ehcsztein em julho 30, 2006 05:07 AM

No primeiro contato com um texto de Nietszche, tive a impressão geral; cruel, desumano.Humildemente me retrato, não foi ele quem criou nada, teve a visão aguçada e vanguardista de analisar o ser humano na sua forma
irrracional; desde suas necessidades a pequenas e grandes vaidades. Os fins justificam os meios.Continuamos animais dentre outros animais.

Afixado por: nilson em julho 30, 2006 06:46 PM

Nietzsche faz notar uma análise baseada numa hiperbolização teórica, sem filtro e narcisista, com o intuito de refutar um universo psíquico da sociedade que transporta no seu intimo todos os preconceitos impostos pelos dogmas sociais.
Todas as sociedades têm os seus princípios e valores, que no fundo, são os parâmetros que definem uma civilização, podemos escolher ser agnósticos, ninguém nos impede, mas não nos é permitido ser anárquicos, logo, temos limitações que moldam a nossa mente e condicionam as nossas vivências e actos. Isto é, vivemos colateralmente, fruto duma educação similar, onde cada um cria um estatuto a quem tem direito, e ao qual se habitua, logo, parece-me legitimo – apesar de frio e insensível – que para um pensamento egoísta um acto egoísta, por outro lado, um pensamento perseguido um acto igualmente perseguido. Pode-se discordar, mas nunca julgar, porque quem faz os homens são as sociedades, e dentro deste elenco há uns bons e uns maus, venha o Darwin e escolha…

Afixado por: John Klober em setembro 5, 2006 01:26 AM

Nietzsche faz notar uma análise baseada numa hiperbolização teórica, sem filtro e narcisista, com o intuito de refutar um universo psíquico da sociedade que transporta no seu intimo todos os preconceitos impostos pelos dogmas sociais.
Todas as sociedades têm os seus princípios e valores, que no fundo, são os parâmetros que definem uma civilização, podemos escolher ser agnósticos, ninguém nos impede, mas não nos é permitido ser anárquicos, logo, temos limitações que moldam a nossa mente e condicionam as nossas vivências e actos. Isto é, vivemos colateralmente, fruto duma educação similar, onde cada um cria um estatuto a quem tem direito, e ao qual se habitua, logo, parece-me legitimo – apesar de frio e insensível – que para um pensamento egoísta um acto egoísta, por outro lado, um pensamento perseguido um acto igualmente perseguido. Pode-se discordar, mas nunca julgar, porque quem faz os homens são as sociedades, e dentro deste elenco há uns bons e uns maus, venha o Darwin e escolha…

Afixado por: John Klober em setembro 5, 2006 01:27 AM

Exato, John Klober. Talvez nunca somos,porque de fato constantemente somos impelidos a ser.

Afixado por: Ehcsztein em setembro 5, 2006 05:40 PM

Não digo que Nietzsche é fora fora de série? Digo "é",no tempo atual,presente. É uma reflexão que toda a sociedade deveria fazer, lá com os seus botões. Veria, com certeza, que muitas vezes, sem perceber, magoou, feriu, constrangiu, irou alguém, que talvez até foi levado a ter ódio. E alguém com ódio é capaz de muito terror...Nietzsche é tão verdadeiro que nos assusta pensar no que ele falou há tantos anos atrás. Em nome da nossa felicidade queremos e queremos ter tudo, fazer tudo, conseguir tudo a qualquer preço, sem se importar com o sentimento alheio. Não se pára para pensar no que estamos provocando no outro. Não nos importa. Ele que se dane. Eu faço o que eu quero, na hora que quero, do jeito que quero. Os outros ... são outros.Por isso adoro Nietzsche. Sempre atual, cutucando a onça dormente em nós, fazendo-a rugir espetacularmente! O pensamento desse filósofo é doído,mas não é cruel.Acredito que ele não seja insensível. Apenas quis fazer-nos olhar um pouco para nós mesmos, tentando nos alertar da nossa inferioridade enorme que sempre ocultamos com palavras doces, mas talvez ferinas,e, atitudes desajustadas... É para pensar, e pensar muito.MVA


Afixado por: Marlene Vieira Aragão em setembro 28, 2006 07:45 AM
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