As mesmas paixões são bastante diferentes nos homens. O mesmo objecto pode-lhes agradar por aspectos opostos; suponho que vários homens podem prender-se a uma mesma mulher; uns a amam pelo seu espírito, outros pela sua virtude, outros pelos seus defeitos, etc. E pode até acontecer que todos a amem por coisas que ela não tem, como quando se ama uma mulher leviana a quem se julga séria. Pouco importa, a gente prende-se à idéia que se tem prazer em fazer dela; e é mesmo apenas essa idéia que se ama, não é a mulher leviana. Assim, não é o objeto das paixões que as degrada ou as enobrece, mas a maneira como a gente o encara.
Ora, eu disse que era possível que se buscasse no amor algo mais puro do que o interesse dos nossos sentidos. Eis o que me faz pensar assim. Vejo todos os dias no mundo que um homem cercado de mulheres com as quais nunca falou, como na missa, no sermão, nem sempre se decide pela mais bonita, ou mesmo pela que lhe pareça tal. Qual a razão disso? É que cada beleza exprime um carácter bem particular, e preferimos aquele que melhor se encaixa no nosso. É pois o carácter que nos determina algumas vezes; é então a alma que procuramos: não me podem negar isso. Portanto, tudo o que se oferece aos nossos sentidos só nos agrada como a imagem daquilo que se esconde à vista deles; portanto, só gostamos então das qualidades sensíveis como órgãos do nosso prazer, e com subordinação às qualidades imperceptíveis aos sentidos, de que elas são a expressão; portanto, pelo menos é verdade que a alma é aquilo que mais nos toca. Ora, não é aos sentidos que a alma é agradável, mas ao espírito: assim, o interesse do espírito torna-se o principal, e se o interesse dos sentidos lhe fosse oposto, nós o sacrificaríamos. Basta pois nos persuadirmos de que ele lhe é verdadeiramente oposto, que é uma nódoa para a alma. Eis o amor puro.
Amor no entanto verdadeiro, que não se deve confundir com a amizade; porque na amizade, é o espírito que é o orgão do sentimento; aqui, são os sentidos. E como as idéias que vêm pelos sentidos são infinitamente mais poderosas do que as vistas da reflexão, o que elas inspiram é a paixão. A amizade não vai tão longe.
Luc de Clapiers Vauvenargues, in 'Das Leis do Espírito'
Publicado por pns em julho 27, 2006 11:00 PMConcordo.
Afixado por: Ana Belo em julho 28, 2006 11:22 AMSe ao menos a alma fosse visivel aos olhos...
Afixado por: Márcia em julho 28, 2006 01:29 PMMárcia, na minha opinião, a alma é visível aos olhos da alma.
Afixado por: Ana Belo em julho 28, 2006 02:17 PMSe não me engano no Pequeno Principe há uma passagem onde afirma-se que o essencial é invisível aos olhos...Só se ve bem quando se vê com o coração.Para alguns é o que basta.
Afixado por: nilson em julho 29, 2006 01:48 AMAmar é um sentimento, vem do sentir, dos sentidos.É possível gostar e não amar, mas não há amar sem gostar.
Afixado por: Marcos Campos em julho 29, 2006 03:21 PMAmar é um sentimento, vem do sentir, dos sentidos.É possível gostar e não amar, mas não há amar sem gostar.
Afixado por: Marcos Campos em julho 29, 2006 03:21 PMA simplicidade me encantou no seu Blog. O requinte em que se apresenta encanta! Abraço!
Afixado por: Complicadinha em agosto 2, 2006 06:01 PMConcordo plenamente com o que aqui está escrito. Vivo exactamente um amor de alma, que apesar de vidas completamente distintas e separadas se mantem ao longo destes anos todos(7 anos) e sempre com a mesma ligação de alma que é sentida na plenitude pelo nosso espirito.
Afixado por: alaise em novembro 5, 2006 07:00 PM