julho 27, 2006

No Amor é a Alma aquilo que Mais nos Toca

As mesmas paixões são bastante diferentes nos homens. O mesmo objecto pode-lhes agradar por aspectos opostos; suponho que vários homens podem prender-se a uma mesma mulher; uns a amam pelo seu espírito, outros pela sua virtude, outros pelos seus defeitos, etc. E pode até acontecer que todos a amem por coisas que ela não tem, como quando se ama uma mulher leviana a quem se julga séria. Pouco importa, a gente prende-se à idéia que se tem prazer em fazer dela; e é mesmo apenas essa idéia que se ama, não é a mulher leviana. Assim, não é o obje­to das paixões que as degrada ou as enobrece, mas a ma­neira como a gente o encara.

Ora, eu disse que era pos­sível que se buscasse no amor algo mais puro do que o interesse dos nossos sentidos. Eis o que me faz pensar assim. Vejo todos os dias no mundo que um homem cer­cado de mulheres com as quais nunca falou, como na missa, no sermão, nem sempre se decide pela mais boni­ta, ou mesmo pela que lhe pareça tal. Qual a razão disso? É que cada beleza exprime um carácter bem particular, e preferimos aquele que melhor se encaixa no nosso. É pois o carácter que nos determina algumas vezes; é então a alma que procuramos: não me podem negar isso. Por­tanto, tudo o que se oferece aos nossos sentidos só nos agrada como a imagem daquilo que se esconde à vista deles; portanto, só gostamos então das qualidades sensí­veis como órgãos do nosso prazer, e com subordinação às qualidades imperceptíveis aos sentidos, de que elas são a expressão; portanto, pelo menos é verdade que a alma é aquilo que mais nos toca. Ora, não é aos sentidos que a alma é agradável, mas ao espírito: assim, o interes­se do espírito torna-se o principal, e se o interesse dos sentidos lhe fosse oposto, nós o sacrificaríamos. Basta pois nos persuadirmos de que ele lhe é verdadeiramente oposto, que é uma nódoa para a alma. Eis o amor puro.
Amor no entanto verdadeiro, que não se deve con­fundir com a amizade; porque na amizade, é o espírito que é o orgão do sentimento; aqui, são os sentidos. E como as idéias que vêm pelos sentidos são infinitamente mais poderosas do que as vistas da reflexão, o que elas inspiram é a paixão. A amizade não vai tão longe.

Luc de Clapiers Vauvenargues, in 'Das Leis do Espírito'

Publicado por pns em julho 27, 2006 11:00 PM
Comentários

Concordo.

Afixado por: Ana Belo em julho 28, 2006 11:22 AM

Se ao menos a alma fosse visivel aos olhos...

Afixado por: Márcia em julho 28, 2006 01:29 PM

Márcia, na minha opinião, a alma é visível aos olhos da alma.

Afixado por: Ana Belo em julho 28, 2006 02:17 PM

Se não me engano no Pequeno Principe há uma passagem onde afirma-se que o essencial é invisível aos olhos...Só se ve bem quando se vê com o coração.Para alguns é o que basta.

Afixado por: nilson em julho 29, 2006 01:48 AM

Amar é um sentimento, vem do sentir, dos sentidos.É possível gostar e não amar, mas não há amar sem gostar.

Afixado por: Marcos Campos em julho 29, 2006 03:21 PM

Amar é um sentimento, vem do sentir, dos sentidos.É possível gostar e não amar, mas não há amar sem gostar.

Afixado por: Marcos Campos em julho 29, 2006 03:21 PM

A simplicidade me encantou no seu Blog. O requinte em que se apresenta encanta! Abraço!

Afixado por: Complicadinha em agosto 2, 2006 06:01 PM

Concordo plenamente com o que aqui está escrito. Vivo exactamente um amor de alma, que apesar de vidas completamente distintas e separadas se mantem ao longo destes anos todos(7 anos) e sempre com a mesma ligação de alma que é sentida na plenitude pelo nosso espirito.

Afixado por: alaise em novembro 5, 2006 07:00 PM
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