Se ocasionalmente nos ocupássemos em nos examinar, e o tempo que gastamos para controlar os outros e para saber das coisas que estão fora de nós o empregássemos em nos sondar a nós mesmos, facilmente sentiríamos o quanto toda essa nosso composto é feito de peças frágeis e falhas. Acaso não é uma prova singular de imperfeição não conseguirmos assentar o nosso contentamento em coisa alguma, e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora do nosso poder escolher o que nos é necessário? Disso dá bom testemunho a grande discussão que sempre houve entre os filósofos para descobrir qual é o soberano bem do homem, a qual ainda perdura e perdurará eternamente, sem solução e sem acordo: Enquanto nos escapa, o objecto do nosso desejo sempre nos parece preferível a qualquer outra coisa; vindo a desfrutá-lo, um outro desejo nasce em nós, e a nossa sede é sempre a mesma. (Lucrécio).
Não importa o que venhamos a conhecer e desfrutar, sentimos que não nos satisfaz, e perseguimos cobiçosos as coisas por vir e desconhecidas, pois as presentes não nos saciam; em minha opinião, não que elas não tenham o bastante com que nos saciar, mas é que nos apoderamos delas com mão doentia e desregrada: Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição praticamente tudo o que é necessário para a vida; viu homens cumulados de riqueza, honra e glória, orgulhosos da boa reputação de seus ftlhos; e entretanto não havia um único que, em seu foro íntimo, não se remoesse de angústia e cujo coração não se oprimisse com queixas dolorosas; compreendeu então que o defeito estava no próprio recipiente, e que esse defeito corrompia tudo de bom que fosse colocado de fora em seu interior (Lucrécio).
O nosso apetite é indeciso e incerto: não sabe conservar coisa alguma, nem desfrutar nada da maneira certa. O homem, julgando que isso seja um defeito dessas coisas, acumula e alimenta-se de outras coisas que ele não sabe e não conhece, em que aplica os seus desejos e esperanças, honrando-as e reverenciando-as; como diz César: Por um vício comum da natureza, acontece termos mais confiança e também mais temor em relação às coisas que não vimos e que estão ocultas e desconhecidas.
Michel de Montaigne, in 'Ensaios'
Publicado por pns em julho 31, 2006 09:00 AMGrande sabedoria a de Montaigne. Não é que as coisas que estão mais longínquas nos virão um dia a saciar?
Afixado por: Manuel Barbosa em julho 31, 2006 02:42 PMGrande sabedoria a de Montaigne. Não é que as coisas que estão mais longínquas nos virão um dia a saciar?
Afixado por: Manuel Barbosa em julho 31, 2006 02:43 PMUma vez conquistado e desfrutado o objeto de nosso desejo, nos voltamos para novas metas. Para isso perdemos um tempo imenso procurando controlar coisas e pessoas á nossa volta sem perceber que mais facil plausível é controlar o que está em nosso interior e dai conseguir uma convivencia harmonica com os que nos cercam e um pouco de felicidade.
Afixado por: nilson em agosto 1, 2006 03:22 AMEsta reflexão de Montaigne é preciosa. Quem a lê, e se, Ser em busca de aperfeiçoamento moral e espiritual for, estacará de pronto e trará para sua vida, ato imediato, tal profundo ensinamento, pois, certeza quase tenho eu, constitui verdade universal.
Qual de nós em tal erro não incorreu?-- a não ser aqueles seres santos, em dedos contáveis, que, nesta Terra, grandes exemplos deixaram?
Porto, 2006.08.13
Viva.
Eu acho que Montaigne ao dizer o que disse não disse nada de novo. O homem é insatisfeito por natureza e ainda bem que o é. Gosto mais da citação de Lucrécio. A insatisfação é uma aliada do progresso portanto tem plenamente definido o seu espaço. A questão de eu ter um determinado emprego e deveria ter outro constitui uma insatisfação menor. A insatisfação(ou a expressão nada nos satisfaz) para ter audiência precisa de se entregar a grandes causas, tipo teoria de ALBERT CAMUS que é de opinião ser a vida um absurdo.Se esta não nos satisfaz haverá outra?
js
Concordo plenamente!
O homem é insatisfeito porque procura no exterior respostas que só terá quando se voltar para si mesmo. sente-se entediado, quer controlar tudo e a todos mas não tem auto controle e auto conhecimento. Preocupa-se com a vida de seus semelhantes para não enxergar o quanto a sua vida é infeliz.