agosto 03, 2006

O Prazer no Costume

Uma importante varie­dade do prazer e, com isso, fonte da moralidade, provém do hábito. O usual faz-se mais facilmente, melhor, portanto, com mais agrado, sente-se nisso um prazer e sabe-se, por experiência, que o habitual deu bom resultado, daí é útil; um costume, com o qual se pode viver, está provado que é salutar, pro­veitoso, ao contrário de todas as tentativas novas, ainda não comprovadas. O costume é, por conse­guinte, a união do agradável e do útil; além disso, não exige reflexão. Assim que o homem pode exer­cer coacção, exerce-a para impor e introduzir os seus costumes, pois para ele, eles são a comprovada sabedoria prática. De igual modo, uma comunidade de indivíduos obriga cada um deles ao mesmo cos­tume.
Aqui está a conclusão errada: porque uma pessoa se sente bem com um costume ou, pelo me­nos, porque por intermédio do mesmo assegura a sua existência, então esse costume é necessário, pois passa por ser a única possibilidade de uma pessoa se conseguir sentir bem; o agrado da vida parece emanar exclusivamente dele. Esta concepção do habitual como uma condição da existência é aplica­da até aos mais pequenos pormenores do costume: dado que o conhecimento da verdadeira causalidade é muito escasso entre os povos e as civilizações que se encontram a um nível baixo, vela-se, pois, com supersticioso receio, por que tudo continue a seguir com o mesmo andamento; mesmo quando o costume é dificil, austero, incómodo, é conserva­do, devido à sua utilidade aparentemente supe­rior. Não se sabe que o mesmo grau de bem-estar também pode existir com outros costumes e que até é possível alcançar graus mais elevados. Mas aquilo que se percebe bem é que todos os costu­mes, até os mais austeros, com o tempo se tornam mais agradáveis e suaves e que até o modo de vida mais severo se pode tornar um hábito e, portanto, um prazer.

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

Publicado por pns em agosto 3, 2006 10:00 PM
Comentários

Parece-me ma visão muito, ou talvez demasiado, conformista da vida. E ainda por cima, nega qualquer tipo de individualismo na escolha das próprias acções futuras.

Afixado por: Vandelart em agosto 6, 2006 05:03 PM

Não foi bem isto que Nietzsche esta expressando aqui, meu caro Vanderlart.

Afixado por: Daniel em agosto 11, 2006 10:56 PM

PORTO, 2006.08.13
Discordando.
Não estou a cem por cento com Nietzsche.E estou mais de acordo com Vandelart do que com o Daniel. Aliás o que Daniel diz é pouco. Em meu entender o hábito e o costume podem limitar a inovação. O costume, além de poder ser a união do agradável e do útil é também rotina ou repetição por isso não exige reflexão. Quando for tido até como processo idóneo de formação de norma jurídica é considerado como fonte de direito. Aqui o costume adquire um estatuto decisor e que pode levar à separação de fronteiras entre o que é justo ou injusto, um comportamento nobre que lhe reconheço. Não concordo que o costume resulte do exercício da coacção exercendo-a para impor e introduzir os seus costumes.
Para que uma comunidade de indivíduos obrigue a cada um deles o mesmo costume é necessário que essa prática seja justa e produza rentabilidade para essa comunidade.
Concordo que todos os costumes, até os mais austeros, com o tempo se tornam mais agradáveis e suaves podendo tornar-se num hábito/prazer; todavia esses costumes devem possuir uma componente favorável.
JS

Afixado por: JOÃO SOUSA em agosto 13, 2006 06:22 PM

Com o costume uma dieta à base de sopa de pimentas torna-se um prazer e proporciona a revitalização vascular.

Afixado por: nilson em agosto 15, 2006 08:24 PM

Ao meu ver, Nietzsche está justamente propondo a possibilidade de prazer e êxito fora dos limites de acomodação dos costumes.

Afixado por: Alexis em agosto 17, 2006 07:02 PM

Nietzsche é de doer, mesmo.Álfineta com ategoria. Neste documento ele fala sobre os costumes que se transformam em hábitos e se enraizam nas pessoas, nas comunidades ,em todas as sociedades. Ninguém quer perder a segurança e se enveredar pelos caminhos desconhecidos da alteração de modo de pensar, de viver, de agir...O que já é sabido não incomoda e dá para lutar quando a tempestade chegar. Pode perder, mas há a luta para conquista de espaço.De poder.
As pessoas se sentem bem com uma rotina diária que não atrapalha, aparentemente, sua vida. " Para quê mudar?" "Não vale a pena mudar!" " Sempre foi assim e nunca foi mudado." è isso que se ouve à simples proposição de alteração.Cristalizou.Passa de geração à geração, os costumes fortalecem-se, viram hábitos, rotinas... e parecem satisfeitos, felizes. É o medo de balançar a consciência? É medo da catarse que essa alteração vai provocar? É preciso fazer uma catarse e purificar o que está estagnado e isso dá medo. A fraqueza treme. Só é aceita e,mas não sem discussão, uma mudança, uma alteração de estado. Aceita simplesmente, porque para esta alteração ninguém é convidado a discutir, nem a opinar. Ela vem e muda tudo: o que vai e o que fica. A morte.

Afixado por: Marlene Vieira Aragão em setembro 26, 2006 08:25 AM
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