agosto 21, 2006

O Verdadeiro Ócio

A verdadeira riqueza é apenas a riqueza interior da alma, tudo o resto traz mais problemas do que vantagens (Luciano). Alguém assim rico interiormente de nada precisa do mundo exterior a não ser um presente negativo, a saber, o ócio, para poder cultivar e desenvolver as suas capacidades espirituais e fruir a sua riqueza interior. Portanto, requer propriamente apenas a permissão para ser ele mesmo durante toda a sua vida, a cada dia e a cada hora. Se alguém estiver destinado a imprimir, em toda a raça humana, o traço do seu espírito, haverá para ele apenas uma felicidade e infelicidade, ou seja, a de poder aperfeiçoar as suas disposições e completar as suas obras - ou disso ser impedido. O resto é-lhe insignificante. Sendo assim, vemos os grandes espíritos de todos os tempos atribuírem o valor supremo ao ócio. Pois este vale tanto quanto o homem. A felicidade parece residir no ócio, diz Aristóteles, e Diógenes Laércio relata que Sócrates louva o ócio como a mais bela posse.

Também corresponde a isso o facto de Aristóteles declarar a vida filosófica como a mais feliz. De modo semelhante, diz na Política: "Poder exercer livremente as próprias aptidões, sejam elas quais forem, é a verdadeira felicidade", o que coincide com a sentença de Goethe em Wilhelm Meister Quem nasceu com um talento, para um talento, encontra no mesmo a sua mais bela existência. Todavia, possuir ócio é estranho não só à sorte comum, mas também à natureza comum do homem, pois o seu destino natural é o de empregar o seu tempo com a aquisição do necessário para a sua existência e a da sua família. Ele é um filho da necessidade, não uma inteligência livre. Em conformidade com isso, o ócio logo se torna um fardo para o homem comum, por fim um tormento, se ele não conseguir preenchê-lo com os fins artificiais e fictícios de toda a espécie, mediante o jogo, a distração e passatempos de todo o tipo. Pelos mesmos motivos, o ócio também lhe traz perigo, pois com acerto se diz difícil é a quietude no ócio. Por outro lado, um intelecto que exceda em muito a medida normal também é uma anomalia, portanto, inatural. No entanto, uma vez que existe, o homem que dele dispõe, para poder encontrar a sua felicidade, precisa justamente daquele ócio que, para os outros, ou é inoportuno, ou é pernicioso. Quanto a ele, sem o ócio, será um Pégasus sob o jugo e, portanto, infeliz. Mas se as duas anomalias se encontram, a exterior e a interior, então é um caso de grande felicidade. Pois aquele assim favorecido levará uma vida de tipo superior, a saber, a de quem está eximido das duas fontes opostas do sofrimento humano, a necessidade e o tédio, ou do laborar preocupado pela existência e a incapacidade de suportar o ócio (isto é, a própria existência livre), que são males dos quais o homem escapará apenas quando eles se neutralizarem e se suprimirem reciprocamente.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Publicado por pns em agosto 21, 2006 09:00 AM
Comentários

Parece-me um texto sem lacunas. Acho tudo correcto. Nada a opor portanto.
JM

Afixado por: João Sousa em agosto 21, 2006 10:59 PM

Lindo não? porém como nós apreciadores da Verdadeira Arte, do Espírito, da Alma e do Amor conseguiremos praticar este prazer numa terra de ignorantes capitalistas que tem uma motivação única. O poder de conquistar cada vez mais, e quem não faz isto é taxado como um ser não sociável. Amemos o ócio e compreendamos de uma vez por todas o que ele realmente significa.
Amal

Afixado por: amal scheleschthing em agosto 22, 2006 01:53 PM

Texto realmente lindo, pena que para a maioria dos homens,os comuns, o verdadeiro significado do ócio continue restrito aos livros.

Afixado por: nilson em agosto 22, 2006 05:27 PM

Uma preciosidade principalmente o dito: "o homem escapará apenas quando eles se neutralizarem e se suprimirem reciprocamente"...um ideal aonde o ócio,subproduto da criatividade e gênio humano,encontra o seu espaço.

Afixado por: Ehcsztein em agosto 24, 2006 03:34 PM
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