setembro 17, 2006

Os Homens são como as Crianças

A atitude que nós temos para com as crianças é a atitude que o sábio tem para com todos os homens, que são pueris mesmo após a idade madura e os cabelos brancos. O que terão progredido estes homens, cujos males da sua alma apenas se tornaram em maiores males, que em forma e grandeza corporais tanto diferem das crianças, mas que em tudo o resto não são menos ligeiros e inconstantes, correndo atrás dos desejos sem reflectirem, agitados e que quando se aquietam é por medo, não por engenho seu?
Diria que aquilo que distingue as crianças dos homens é que a avidez das crianças é por dados, nozes e pequenas moedas de ouro, enquanto que a dos homens é pelo ouro e pela prata das cidades; uns imaginam magistrados entre eles mesmos e imitam a toga, o facho e o tribunal, os outros jogam os mesmos jogos, mas a sério, no Campo de Marte, no Fórum e na Cúria; uns, amontoando areia à beira-mar, constroem simulacros de casas, os outros, como quem executa uma grande obra, trabalhando a pedra na construção de paredes e tectos, fazem aquilo que os devia abrigar um verdadeiro perigo. Por isso, entre crianças e homens-feitos o erro é igual, diferindo apenas o objecto e a importância.
Assim sendo, não é por acaso que o sábio recebe as ofensas dos homens como brincadeiras e, de vez em quando, os admoesta e castiga, não porque tenha sofrido a injúria, mas sim porque a cometeram e para que não a repitam. É também com a vergasta que domamos os animais, e não nos iramos com eles quando eles recusam ser montados, mas reprimimo-los, para que a dor vença a sua teimosia. Vês assim resolvida aquela objecção que nos fazem: se o sábio não sofre a injúria nem a ofensa, porque pune os que as cometeram? De facto, ele não se vinga, ele emenda-os.

Séneca, in 'Da Constância do Sábio'

Publicado por pns em setembro 17, 2006 11:00 PM
Comentários

PORTO, 2006.09.19
COMENTÁRIO.
Diria que os homens são eventualmente crianças em determinados momentos e não que os homens são como as crianças. A frase que se segue de Séneca,
“correndo atrás dos desejos sem reflectirem, agitados e que quando se aquietam é por medo, não por engenho seu?”

está mais direccionado às crianças, que se aquietam por medo. O homem tem efectivamente desejos de vária ordem e aquietam-se por engenho seu. Não concordo que os homens tenham comportamentos como as crianças. O homem tem um desafio a vencer e por isso corre riscos. Antes de correr o risco sonhou e só depois concretiza ... e o risco vem. Ser homem é um risco porque tem de se preparar para o combate. Foi Hemingway que disse:- é muito difícil ser homem. Só somos homens autênticos se tivermos sido crianças autênticas. Mas o homem não tem nada de criança.
A frase de Séneca,
“Por isso, entre crianças e homens-feitos o erro é igual, diferindo apenas o objecto e a importância.”

não tem o meu aval. O erro não pode ser igual entre crianças e homens- feitos porque este já erra menos enquanto a criança está a começar a não errar. E o percurso é longo. Se há diferenças entre o objecto e a importância isto quer dizer que o erro é inato e o conhecimento (experiência adquirida...) tem todas as possibilidades de o corrigir. Está provado. A criança está receptiva a aprender e a ser ensinada. O homem feito poderá não saber mas tem de assumir o papel de saber tudo e errar menos. Porque erramos sempre...
Quando Séneca diz:
“De facto, ele não se vinga, ele emenda-os.”
não está a referir-se a crianças mas a outros. Portanto o título “Os Homens são como as Crianças” não é feliz.
JS


Afixado por: JOÃO SOUSA em setembro 19, 2006 12:43 PM

E quem assegura que esta "experiência adquirida" do homem adulto é válida? Já pensastes que a sociedade,a tal dita civilização, é recheada de homens que vivem como crianças,que brigam e brincam? Agora, a única diferença que vejo é de não ter mais pais(deuses) que apartem...talvez aí estaria a significativa diferença.

Afixado por: Ehcsztein em setembro 19, 2006 04:05 PM

Porto, 2006.09.19
Meu caro EHCSZTEIN.
Viva.
Perguntas-me:-“E quem assegura que esta "experiência adquirida" do homem adulto é válida?” A minha resposta a isso, é que em condições normais, essa experiência adquirida é válida... tem, obrigatoriamente de ser válida. Eu sei que a sociedade está podre mas terá que dar o aval à experiência, porque a sociedade se quiser, pode ensinar-nos muita coisa e transmitir-nos essa experiência de que falo. E esses que citas, que vivem como crianças, que brigam e brincam, não podem entrar nas contas, terão que ser eliminados. Não há uma norma que cubra os dois aspectos. As excepções são de outro departaento.
JS

Afixado por: JOÃO SOUSA em setembro 19, 2006 04:33 PM

Caro João Souza,

Entendo vossa questão, mas ainda me questiono seriamente sobre todo este progresso que nossa civilização está realizando, como mídia,internet,etc,frutos da tecnologia,no invólucro do poder gerador das neuroses diversas .. eu me questiono até que ponto a civlização existe como civilização e a barbárie como barbárie.

Afixado por: Ehcstein em setembro 20, 2006 03:01 AM
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