Para aquele que não é nobre, mas dotado de algum talento, ser um pobre-diabo é uma verdadeira vantagem e uma recomendação. Pois o que cada um mais procura e aprecia, não apenas na simples conversação, mas sobretudo no serviço público, é a inferioridade do outro. Ora, só um pobre-diabo está convencido e compenetrado em grau suficiente da sua completa, profunda, decisiva, total inferioridade e da sua plena insignificância e ausência de valor, tal como exige o caso. Apenas ele, portanto, inclina-se amiúde e por bastante tempo, e apenas a sua reverência atinge plenos noventa graus; apenas ele suporta tudo e ainda sorri; apenas ele conhece como obras-primas, em público, em voz alta ou em grandes caracteres, as inépcias literárias dos seus superiores ou dos homens influentes em geral; apenas ele sabe como mendigar; por conseguinte, apenas ele se pode tornar um iniciado, a tempo, portanto, na juventude, naquela verdade oculta que Goethe nos revelou nos seguintes termos:
Sobre a baixeza
Que ninguém se lamente:
Pois ela é a potência,
Não importa o que te digam.
Em contrapartida, quem já nasceu com uma fortuna que lhe garanta a existência irá posicionar-se, na maioria das vezes, de modo contestário: ele está habituado a caminhar de cabeça erguida. Não aprendeu aquelas artes da subserviência; talvez até se sirva de eventuais talentos, cuja inadequação, diante do medíocre e servil, é o que deveria compreender. É até mesmo capaz de notar a inferioridade daqueles situados acima dele, e se, enfim, ocorrerem indignidades, torna-se recalcitrante e desconfiado. Mas não é assim que alguém se consegue impor no mundo; antes, talvez, possa ocorrer-lhe dizer como o atrevido Voltaire: Temos apenas dois dias para viver: não vale a pena passá-los arrastando-se aos pés de patifes desprezíveis. Infelizmente, diga-se de passagem, patifes desprezíveis é um predicado para o qual, neste mundo, existe um número assustador de sujeitos.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em outubro 16, 2006 09:00 AMEstas asserções do Arthur não parecem estar muito em conformidade com a nossa atualidade. Não vejo nenhuma vantagem se ser um pobre-diabo com algum talento, mesmo se convencido que os seus talentos superam os seus defeitos.
A observação final, no entanto, prossegue cada vez mais atual.
PORTO, 2006.10.16
"O POBRE DIABO"
As vantagens de se ser um Pobre-Diabo.
Não é nenhuma....
Tem de andar sempre rebaixado
E não acertamos uma.
O Pobre – Diabo é um dependente
Não sei se tem direito a ser pessoa
Vive nessa dúvida eternamente.
Como se vê não é coisa boa.
Se perguntarem a um Pobre-Diabo
O que é que ele faz quando está empregado
Ele não sabe responder
JS
Aos mortais que morram sem conhecer a verdadeira essência que é a do ser pobre-Diabo,ou seja, aquele que faz tudo muito melhor que qualquer um e por isso não é reconhecido, e isto porque certamente ele sabe e sabendo ele faz em tão grande potência que só mesmo ele para descobrir aquilo que ninguém conseguirá descobrir.
Afixado por: Ehcsztein em outubro 18, 2006 03:28 AMConsiderando-se que o mundo não está igualmente dividido entre nobres e plebeus, creio que o autor quer tratar do nosso comportamento diante da força e do poder. Lamentávelmente não recordo o nome do colega que afirmou que quanto mais do alto a força maior a pressão nos timpanos; portanto tudo incomoda e dependendo do tamanho da espada que trazemos nas costas e a expessura da lâmina fazer reverências, andar de arrasto e se alimentar da caridade alheia, para quem não domina a arte cênica, é deprimente.Por isso acho que o pobre diabo está dentro de cada um de nós e sempre nos lembra o momento de baixar a cabeça e escapar do golpe da espada fortuita.
Afixado por: nilson em outubro 18, 2006 07:42 PMA vantagem do pobre-diabo é que é mais livre do que qualquer outro. Não sente pressão para estar em cima, vive centrado no que quer fazer e não no que precisa de fazer para cuidar da imagem que pretende fazer passar.
[www.3vial.blogspot.com]
Afixado por: Marcelo Melo em outubro 31, 2006 11:51 AM