Estamos habituados, perante tudo o que é perfeito, a omitir a questão do seu processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presença, como se ele tivesse saído do chão por artes mágicas. Provavelmente, estamos ainda, neste caso, sob o efeito residual de um antiquíssimo sentimento mitológico. Quase nos sentimos ainda (por exemplo, num templo grego como o de Pesto) como se, numa manhã, um deus, brincando, tivesse construído a sua morada com tão gigantescos fardos. Outras vezes, como se um espírito tivesse subitamente sido metido por encanto dentro duma pedra e quisesse, agora, falar através dela. O artista sabe que a sua obra só produz pleno efeito, se fizer crer numa improvisação, numa miraculosa instantaneidade da sua criação; e, assim, ele ajuda mesmo a essa ilusão, introduzindo na arte, ao começo da sua criação, aqueles elementos de entusiástica inquietação, de desordem que tacteia às cegas, de sonho atento, como forma de iludir, a fim de dispor o espírito do espectador ou do ouvinte de modo a que ele creia no súbito brotar da perfeição.
A ciência da arte, como é evidente, tem de contradizer essa ilusão da maneira mais determinada e apontar as conclusões erróneas e os maus hábitos do intelecto, graças aos quais este cai na rede do artista.
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'
Publicado por pns em outubro 26, 2006 09:00 AMNão há nada de errado na aparência de ausência de esforço da obra de arte. Na verdade, nada há de mais humano. É mesmo a razão pela qual a arte é mais admirada - tudo parece "surgido" espontânea e repentinamente da... criação. Ou seja, se foi criado, foi nascido de onde não havia nada, foi "acrescentado" a este mundo.
Nada, absolutamente nada, importa na contemplação do resultado.
É próprio do ser humano não se querer chater com o processo pelo qual aquilo que lhe dá prazer ESTÁ LÁ. Está lá, e todo o instante que seja subtraído à sua fruição é um incómodo, uma perda de tempo. Pior ainda, ASSOCIAR o penoso, tedioso, complicado e longo processo de gestação à obra, cuja fruição lúdica é o seu objectivo, é muito justamente abominado pelas pessoas.
Que se peocupe o Artista com a gestação e a técnica, que os Humanos a apreciarão (ou não).
Resumindo: impingir a técnica da arte é uma coisa, fazer Arte é outra e apreciá-la ainda outra. Não precisam de ser misturadas. Se o fruente o quiser, aí sim, poderá documentar-se. Mas impingir e associar a dor do parto à criancinha... Ó Nietzsche, tem pena da gente!...
Eu quero mesmo é "cair na rede do Artista" - senão, lá se vai o lúdico.
Mas tenho que reconhecer que o conhecimento do processo artístico ajuda na sua fruição - quando eu estou interessado nisso.
Gostei de ler!!!!
Só não concordo com o "nada há de mais humano" ("Não há nada de errado na aparência de ausência de esforço da obra de arte. Na verdade, nada há de mais humano.")
Na realidade acho que nada há de mais Divino!!!!...mais Zen!!!!!
Sim...quando criamos sem esforço...estamos a canalizar o nosso Eu Superior...ou Anjo da Guarda...como é mais conhecido.
O Fernando Pessoa sabia disso:
"Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a
outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o
Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma
destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas
usam, falando ou escrevendo."
Mensagem
Fernando Pessoa
Ao homem é necessário cada vez mais ocultar-se na ilusão. Aos artistas é necessário cada vez mais revelar-se na ilusão.
Afixado por: Ehcsztein em outubro 27, 2006 07:28 PMO Poeta é um fingidor... (etc., etc.)?...
Afixado por: WiseMax em outubro 28, 2006 08:35 AMO poeta finge para se revelar(e não tem nenhum que sendo poeta tenha mentido com verdades), o homem finge para se acovardar.
Afixado por: Ehcsztein em outubro 28, 2006 06:02 PMSem o fingimento o criador nada seria. Muito difícilmente a arte é racional. A Arte surge de uma osmose do racional edo irracional...
Afixado por: Manuel Barbosa em novembro 6, 2006 03:16 PM