outubro 27, 2006

Reformar é não Ter Emenda Possível

Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, o são todos os reformadores.

Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'

Publicado por pns em outubro 27, 2006 09:00 AM
Comentários

Por acaso este texto é só "um bocadinho" reaccionário.

Com efeito, é mais importante o que está subjacente no desejo de reformar do que o próprio desejo de reformar.

Em toda a História do Homem tem havido aqueles que reformam ou revolucionam por motivos próprios de sede do poder e aqueles que puseram fins mais ou menos progressistas e sintonizados com a vontade e o sentir popular acima dos próprios.

Todos fracassaram em certa medida mais cósmica - e todos tiveram sucesso, numa certa forma imediatista de ver a coisa. Mas todos tiveram o seu papel.

Se tivessem ficado quietos, a Humanidade teria perdido. Não é revolucionando o indivíduo que se revoluciona a sociedade - nem o inverso.

Ambas as maneiras de introduzir a mudança são válidas e se reforçam mutuamente. Porque nem o Homem vive sozinho nem a Sociedade pode passar sem aqueles Homens que se destacam dos outros e os impulsionam.

Falar de evitar os movimentos sociais e políticos com o pretexto de que cada um tem primeiro de cuidar de si mesmo é uma falácia conservadora e imobilista. É uma cegueira, e uma perfídia. Apontando ao indivíduo de consciência judaico-cristã, baseada no sentimento da culpa original e de todas as culpas herdadas, é fácil persuadi-lo a nada fazer pela Sociedade, a não questionar o Poder estabelecido, a empreender a obra nunca acabada do seu hipotético "aperfeiçoamento" individual.

Tudo isto como se fosse possível um indivíduo existir sem os quadros de referência da Sociedade, das relações de Poder. É muito atraente para os poderes estabelecido fazer o indivíduo voltar a cara e a raiva para outro lado - de preferência para ele próprio - uma espécie de castigo e uma garantia de imobilização perpétua, o palhacito girando en torno dele mesmo até se sentir tonto e cair sozinho.

É este o lado de Fernando Pessoa que lhe granjeou apois ente a fascistaria e do qual tenho muita pena. Mas como poderia o Poeta ter ficado imune à violenta e persistente acção de propaganda que, nessa época, granjeava não indivíduos apenas, mas povos inteiros e nações prestigiadas para a causa da ditadura, da massificação e da manutenção feroz de um status quo instituído pelo terror, pela agressividade incontrolada, pela propaganda mais feroz e pelo silenciamento moral, físico e do próprio direito a ser conhecido, de todos os seus adversários, melhor dizendo, de todos os não cegamente apoiantes?...

Afixado por: WiseMax em outubro 28, 2006 10:35 AM

Compreendo a tua reflexão WiseMax,mas veja,meu caro. Fazer revolução é quebrar as classes que sustentam o poder,contudo sem tocar na estrutura que flui para fazer o modelo como tal..Assim, a revolução soa como um choque que derruba um certo gráfico que a sociedade vem construíndo(penso como exemplo uma montanha que cresce para cima com o tempo,movida por aqueles que detem o poder)...nada mais justo que fazer a revolução pelo poder,reduzindo o cume e reduzindo a penúria pela qual a base tem de sustentar o topo e toda aquela estrutura que se fragiliza...contudo, a antiga base virará também topo, que será esgamada um tempo depois. Existe aí um ciclo permanente...talvez um ciclo próprio mesmo do homem que vive seus imensos conflitos de tempos em tempos..como dizia Heráclito: "Tudo muda exceto a própria mudança"... e por quê não muda? Talvez por ser estrutural...e como aliviar a situação? Fazendo a revolução pelos costumes,esta idéia apontada por Pessoa, tentando oferecer uma certa estrutura melhor, através de uma repetição sistemática, da poesia, sensibilidade e reflexão(principalmente) .. É certo que podes pensar: "Mas isso é impossivel?" Não...talvez não seja, se de pouco em pouco exercitarmos cada um...a estrutura tende sempre ao cume,o que diferencia é a forma ou intensidade que o substrato dá a esta estrutura social...

Afixado por: Phil em outubro 29, 2006 05:23 AM


Não percebeste nada do que aí está escrito.
Falas como se esta realidade, este nosso mundinho, fosse o único. Ele era clarividente, rosacruz, etc., e está a falar de uma realidade maior que controla toda a nossa realidade menor, realidade essa que desconheces completamente, e por isso apenas intrepretas o que ele diz à luz daquilo que conheces.
O que ele diz nada tem a ver com fachismo, tem mais a ver, sem ter, com budismo, por exemplo.

Realmente chega-se à sabedoria, à paz, à abundância, ao universo, não por fora, mas por dentro. Por isso a acção, uma revolução, nada mais é do que reacção, reage ao que rejeita sem capacidade de o transcender verdadeiramente, pois move-se no mesmo plano.
A verdadeira revolução é criativa, a verdadeira mudança é a que nos faz ascender a um outro plano mais evoluído e para isso os actores da mesma têm que se transformar eles próprios, ou estão a reproduzir sempre os mesmos erros, mesmo que com novas roupagens. E isso foi o que aconteceu e acontecerá em todas as revoluções...basta lembrarmo-nos do nosso 25 de Abril.
As revoluções que conhecemos da história só fazem rodar a roda do sansara, não conseguem sair dela, da roda da ilusão. Ou se quiseres, são como o eterno retorno do mesmo. Não é esse o caminho que leva à verdadeira mudança, à verdadeira evolução e ascensão.
E um grande poeta nunca pode ser reaccionário... ou não seria um grande poeta.

Afixado por: Taliesine em outubro 29, 2006 01:52 PM

Bem... Poetas reaccionários houve muitos e bons!... Estava a lembrar-me do M. S. Carneiro que se suicidou e do Camilo Pessanha. O FP não é nenhuma avis rara. A verdade é que, do ponto de vista social e político, ainda se consegue estar bem distante do universo pessoal - que é mais rico e ao mesmo tempo mais redutor do que aquele.

E, se respeito a componente pessoal do Pessoa, mais nuns heterónimos do que noutros, também sei "desligá-lo" das suas filiações "ideologicas" que, felizmente, apenas contaminaram algo o heterónimo "FP".
A coisa mais maravilhosa nos poetas e escritores é que, quase sempre, conseguem manter uma saudável separação entre o panfletismo, o proselitismo e o furor impingidor de mitos por um lado e a sua interioridade expressa artisticamente, por outro.
Quanto maior a separação (mesmo que involuntária) mais imortal é o autor - porque as modas vão, as pessoas ficam. Estamos cá todos e choramos e rimos com o rosto inteiro. Quem no-lo mostra, reflecte-nos.

Afixado por: WiseMax em outubro 29, 2006 07:26 PM

Como é que um grande génio pode ser tão reaccionário?

Afixado por: Manuel Barbosa em outubro 30, 2006 06:12 PM

Como é que um grande génio pode ser tão reaccionátio? E reparem que eu conheço muito bem a obra pessoana Será da despersonalização?

Afixado por: Manuel Barbosa em outubro 31, 2006 10:25 AM

Tantos coentários anódinos sobre Pessoa. Este é um texto efectivamente reaccionário. É da despersonalização!

Afixado por: Manuel Barbosa em outubro 31, 2006 11:35 AM
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