outubro 23, 2006

Saber Lidar com as Injúrias

Se o próprio Epicuro, que tanto cedeu ao corpo, se insurgiu contra as injúrias, porque hão-de nos parecer estas coisas incríveis ou sobre-humanas? Epicuro disse que, para o sábio, as injúrias são toleráveis; nós dizemos que, para o sábio, não há injúrias. E não digas que isto é estar em desacordo com a natureza: não negamos que seja desagradável ser fustigado, agredido ou ficar privado de um membro, mas negamos que estas coisas sejam injúrias; não contestamos o carácter doloroso, mas sim o nome de «injúria», o qual não podemos aceitar sem faltar à virtude. Veremos qual das duas doutrinas é mais verdadeira; mas, de qualquer forma, ambas desprezam a injúria.

Queres saber qual a diferença entre elas? É a mesma que existe entre dois gladiadores intrépidos: um que comprime a ferida e mantém-se em posição, o outro, virando-se para o público clamoroso, faz sinal de que nada se passou e pede para que não se pare o combate. Não julgues que aquilo em que discordamos é importante: no que diz respeito ao ponto principal, que é aquele que nos interessa, as duas doutrinas encorajam a desprezar as injúrias e o que eu chamaria sombras das injúrias e suspeições, que são as ofensas. Para desprezá-las não é preciso sermos sábios, mas sim sermos tão sensatos que possamos dizer para nós mesmos: «Mereci ou não que estas coisas me acontecessem? Se mereci, não é ofensa, é julgamento; se não mereci, aquele que está a ser injusto comigo deveria envergonhar-se disso». E o que é aquilo a que chamamos ofensa? Um gracejo sobre a minha calvície, sobre a fraqueza da minha vista, sobre a magreza das minhas pernas ou sobre a minha estatura? É ofensa ouvir o que está à vista? Rimo-nos de uma coisa quando é dita por alguém que está a sós connosco, indignamo-nos quando ela é dita publicamente, e recusamos aos outros a liberdade de repetir as coisas que costumamos dizer; divertimo-nos com os gracejos moderados, com os imoderados irritamo-nos.

Séneca, in 'Da Constância do Sábio'

Publicado por pns em outubro 23, 2006 09:00 AM
Comentários

Não é bem o "dar a outra face", mas é seguramente um princípio muito válido de "economia psicológica".
Enquanto fazes o que Séneca diz tu estarás a evitar gastar energias esterilmente em negar aquilo que não pode ser negado (já to fizeram, logo... está feito) e a dar ainda mais importância a esse facto negativo.
As energias assim libertadas podem então ser utilizadas na resolução dos problemas concretos e na execução de objectivos mais proactivos e compensadores.
O exemplo dos gladiadores é bastante bom - com efeito, se o ferido se põe a olhar para a ferida ou a lamentá-la perde o objectivo da luta de vista e isso trarar-lhe-á consequências fatais. Ele tem é que concentrar-se no seu objectivo e apenas dedicar à ferida o trabalho e tempo necessário para minimizar no imediato os seus efeitos.
No quotidiano, esta psicologia tem efeitos altamente compensadores e contribui para aumentar não apenas a eficácia social e profissional dos indivíduos, mas também (e muito) a sua qualidade de vida.

Não há dúvida: Ainda não conseguimos fazer nada de verdadeiramente criador e novo, quando comparados com os Gregos Antigos.

(Mas, já agora, pensemos um pouco nisto: com os escravos a trabalhar para eles, os problemas de subsistência, alojamento e entretenimento resolvidos e 24 horas disponíveis por dia para
PENSAR... não é muito de admirar que, nas longas centenas de anos que tiveram, os Gregos tenham conseguido conquistas notáveis do pensamento. O crédito que tem que lhes ser dado é outro - é que podiam ter sido hedonistas como os da Ásia menor, ou hedonistas e imperiais, como os Romanos, ou aventureiros, como os seus vizinhos Macedónios, enfim, de todas as opções disponíveis, escolheram tratar do corpo e da mente e em todas estas áreas foram brilhantes. Quando pensamos em Séneca, Tales de Mileto e outros, só uma grande admiração e respeito nos podem surgir - é que eles apenas tiveram tempo para pensar no assunto!.... De resto, a nível de ferramentas e instrumentos de pesquisa, só tinham os seus neurónios! É realmente um feito admirável do pensamento humano que tanta coisa pioneira e inovadora tenha surgido apenas da simples capacidade para o pensamento abstracto).

Afixado por: WiseMax em outubro 24, 2006 10:01 AM

Nietzsche diria: - «O teu destino não é ser enxota-moscas!»

Afixado por: vbm em outubro 24, 2006 07:39 PM

Economia psíquica. Um bom termo usado.

Bem, os gregos são desde aqueles tempos nosso padrão de pensamento ocidental, racional, social, dentre outros,por isso ninguém os nega.,mas Saadi ou Hatushnor que o perdoe...aos gregos faltavam ser mais mágicos,menos racionais...exatamente o que falta neste tão (ir)racional mundo de hoje, repletos de pessoas com complexos problemas psicológicos...

Afixado por: Ehcsztein em outubro 27, 2006 01:57 PM

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Afixado por: yyrxbwphts em março 29, 2008 09:25 AM

gosto de ler

Afixado por: lleu em maio 5, 2008 10:51 AM
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