novembro 13, 2006

O Descontentamento Consigo Próprio

O caso é o mesmo em todos os vícios: quer seja o daqueles que são atormentados pela indolência e pelo tédio, sujeitos a contantes mudanças de humor, quer o daqueles a quem agrada sempre mais aquilo que deixaram para trás, ou dos que desistem e caem na indolência. Acrescenta ainda aqueles que em nada diferem de alguém com um sono difícil, que se vira e revira à procura da posição certa, até que adormece de tão cansado que fica: mudando constantemente de forma de vida, permanecem naquela «novidade» até descobrirem não o ódio à mudança, mas a preguiça da velhice em relação à novidade. Acrescenta ainda os que nunca mudam, não por constância, mas por inércia, e vivem não como desejam, mas como sempre viveram. As características dos vícios são, pois, inumeráveis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo próprio.

Este descontentamento tem a sua origem num desequilíbrio da alma e nas aspirações tímidas ou menos felizes, quando não ousamos tanto quanto desejávamos ou não conseguimos aquilo que pretendíamos, e ficamos apenas à espera. É a inevitável condição dos indecisos, estarem sempre instáveis, sempre inquietos. Tentam por todas as vias atingir aquilo que desejam, entregam-se e sujeitam-se a práticas desonestas e árduas, e, quando o seu trabalho não é recompensado, tortura-os uma vergonha fútil, arrependendo-se não de ter desejado coisas más, mas sim de as terem desejado em vão. Eles ficam então com os remorsos de terem assumido essa conduta e com medo de voltarem a incorrer nela, a sua alma é assaltada por uma agitação para a qual não encontram saída, porque não conseguem controlar nem obedecer aos seus desejos, na hesitação de uma vida que pouco se desenvolve, a alma paralisada entre os desejos abandonados.
Tudo isto se torna ainda mais grave quando, com a repulsa do sofrimento passado, se refugiam no ócio ou nos estudos solitários, que uma alma educada para os assuntos públicos não consegue suportar, desejosa de agir, inquieta por natureza e incapaz de encontrar estímulos por si mesma. Por isso, sem a distracção que as próprias ocupações representam para os que nelas andam, não suportam a casa, a solidão, as paredes; com angústia, vêem-se entregues a eles mesmos.

Séneca, in 'Da Tranquilidade da Alma'

Publicado por pns em novembro 13, 2006 11:00 PM
Comentários

Ai Séneca como é difícil a ataraxia. E se é assim como tu dizes na antiguidade o que dizer do homem moderno?!

Afixado por: Manuel Barbosa em novembro 14, 2006 10:51 AM

Ai Séneca como é difícil a ataraxia. E se era assim na Antiguidade o que se pode dizer do homem moderno?!

Afixado por: Manuel Barbosa em novembro 14, 2006 10:56 AM

O descontentamento pode ter várias causas. A retórica de Séneca é a sua retórica que muito prezo. Mas é a dele...

Afixado por: Manuel Barbosa em novembro 14, 2006 03:51 PM

O que diria Schopenhauer,Nietzsche, Baudelaire e todos os pensadores do século XIX,assim como o próprio signo da modernidade do capitalismo? Diriam: “Sêneca certamente é um sonhador"

Afixado por: Ehcsztein em novembro 15, 2006 12:25 PM

Acho que Sêneca é um pesquisador das vontades alheias ocultas,pois nunca estamos tranquilos o bastante,nossas almas estão cada vez mais conturbadas com preocupações mundanas empobrecendo-as de maneira sórdida.

Afixado por: Roberta Marcatti dos Reis em novembro 17, 2006 01:26 PM

Acho que Sêneca é um pesquisador das vontades alheias ocultas,pois nunca estamos tranquilos o bastante,nossas almas estão cada vez mais conturbadas com preocupações mundanas empobrecendo-as de maneira sórdida.

Afixado por: Roberta Marcatti dos Reis em novembro 17, 2006 01:26 PM

Acho que Sêneca é um pesquisador das vontades alheias ocultas,pois nunca estamos tranquilos o bastante,nossas almas estão cada vez mais conturbadas com preocupações mundanas empobrecendo-as de maneira sórdida.

Afixado por: Roberta Marcatti dos Reis em novembro 17, 2006 01:27 PM
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