novembro 21, 2006

Saber Subtrair-se

Pois se é grande lição de vida o saber negar, maior será saber negar-se a si mesmo, aos negócios, às pessoas. Há ocupações estranhas, carunchos do precioso tempo, e pior que nada fazer é ocupar-se com impertinências. Para ser avisado não basta não ser intrometido, é mister conseguir que não o intrometam. Não se há-de ser tanto de todos que não se seja de si mesmo. Tampouco dos amigos se há-de abusar, nem querer deles mais do que concederiam. Todo o demasiado é vicioso, muito mais no trato. Com essa prudente temperança conserva-se melhor o agrado e a estima de todos, porque não se fere a preciosíssima decência. Tenha, pois, liberdade de génio apaixonado do selecto, e nunca peque contra a fé do seu bom gosto.

Baltasar Gracián y Morales, in 'A Arte da Prudência'

Publicado por pns em novembro 21, 2006 09:00 AM
Comentários

Há muita coisa implícita no trecho de Gracián. De modo geral podemos comentar da seguinte maneira. As amizades escravizam. Obrigam-nos, por vezes, a mentir, um feio comportamento. É a amizade nos rebaixando um pouco, em termos de moralidade. Mas como impedir que um amigo - ou falso amigo, mais interesseiro que amigo - nos segure no telefone por mais de meia-hora, dizendo coisas que só interessam à ele? Só nos livramos inventando que temos um comprossimo e que já estamos atrasados. O difícil "não" é uma dura necessidade, mas tem de ser adoçado com uma pequena mentira para não parecermos grosseiros. Se uma delicada voz feminina tenta convencê-lo, no telefone, a comprar determinado produto ou serviço, ou ajudar financeiramente criancinhas doentes e você for por demais delicado/a, é necessário muita firmeza para negar o pedido, mesmo que você já ajuda muita gente. Conheço alguns casos concretos de desastre econômico, simples consequência de não se saber dizer um "não" a um amigo. Um advogado, em audiência cível, esforçava-se para assinar o termo de audiência. Parecia um analfaberto com um peso de cinco quilos no pulso, tal a lentidão com que escrevia, atrazando o encerramento dos trabalhos. Perguntei a ele, como juiz, o que ocorria com o seu braço. E ele me explicou que o problema não estava no braço, mas numa associação de idéias entre o assinar o nome e um desastre financeiro que o arrazara. Ele, que estava bem de vida, não conseguiu dizer um "não" a um grande amigo que pedia seu aval em uma promissória de alto valor. Pressionado pela velha amizade, assinou. O amigo não pagou a dívida e o banco cobrou do avalista, penhorando todos os seus bens. Não tinha como escapar. Depois disso, não conseguia mais assinar seu nome sem uma enorme dificuldade. Há até quem se case porque não teve coragem de dizer um "não" alguns meses antes da cerimônia. E no altar já não dá mais para verbalizar a dura verdade quanto magoaria o noivo ou noiva. Assim, meus amigos, é melhor perder um amigo, se necessário, do que jogar fora a felicidade e virar mentiroso/a.

Afixado por: Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues em novembro 21, 2006 01:55 PM

Olá,

Estou neste momento a fazer pesquisa sobre a blogosfera portuguesa e nesse sentido gostaria de entrar em contacto com o editor (ou um editor) deste blogue. Seria possível enviar-me um email para o endereço teseblogues@sapo.pt?

Obrigada

Paula Silva

Afixado por: Paula Silva em novembro 21, 2006 10:48 PM

Ser prudente é ser submisso. E às vezes quando se quer ser prudente, é impossível porque a vida te pega de tal jeito que ou você agride ou aceita a situação.


Tem que ter orgulho no peito e mentir muito bem para conseguir destacados espaços nesta sociedade ou você será mediucre.

Afixado por: Ehcsztein em novembro 24, 2006 02:03 AM
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