Se nós nada fizermos senão de acordo com os ditames da razão, também nada evitaremos senão de acordo com os ditames da razão. Se quiseres escutar a razão, eis o que ela te dirá: deixa de uma vez por todas tudo quanto seduz a multidão! Deixa a riqueza, deixa os perigos e os fardos de ser rico; deixa os prazeres, do corpo e do espírito, que só servem para amolecer as energias; deixa a ambição que não passa de uma coisa artificialmente empolada, inútil, inconsciente, incapaz de reconhecer limites, tão interessada em não ter superiores como em evitar até os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla. Vê como de facto é infeliz quem, objecto de inveja ele próprio, tem inveja por outros.
Não estás a ver essas casas dos grandes senhores, as suas portas cheias de clientes que se atropelam na entrada? Para lá entrares, teria de sujeitar-te a inúmeras injúrias, mas mais ainda terias de suportar se entrasses. Passa frente às escadarias dos ricos senhores, aos seus átrios suspensos como terraços: se lá puseres os pés será como estares à beira de uma escarpa, e de uma escarpa prestes a ruir. Dirige ante os teus passos na via da sapiência, procura os seus domínios cheios de tranquilidade, mas também de horizontes ilimitados. Tudo quanto entre os homens é tomado como coisa eminente, muito embora de valor reduzido e só notável em comparação com as coisas mais rasteiras, mesmo assim só é acessível através de difíceis e duros atalhos. A via que conduz ao cume da dignidade é extremamente árdua; mas se te dispuseres a trepar até estas alturas sobre as quais a fortuna não tem poder, então poderás ver a teus pés tudo quanto a opinião vulgar considera eminentíssimo, e desse ponto em diante o teu caminho será plano até ao supremo bem.
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
Publicado por pns em dezembro 1, 2006 11:00 PMSéneca! Brilhante e estóicíssimo. Seria possível pôr em prática todos estes ditâmes? Não o creio- mas é gratificante ver passar estes conselhos para a eternidade...
Afixado por: Manuel Barbosa em dezembro 2, 2006 05:19 PMagrura pior.. só a do pobre.. humilhação em cima de humilhação..
Afixado por: Vieira em dezembro 3, 2006 12:47 PMDeixar o que seduz a multidão é, parece-me, a desculpa de um falhado. Se eu tiver boa formação e dispuser de muitos bens materiais eu posso distribuir essa riqueza por outros. Eu tenho mais defesas com o ter do que com o ser. Um industrial com posses, compra de cada vez cinco pares de sapatos. Mas não é para ostentação; é para ganhar tempo.
Estou contra Séneca.
Manuel Brito/Porto
deixar o qe seduz a multidão nao é para toda a gente, pq nos somos a multidao.
para conseguirmos distinguirmo-nos da massa temos de ser muito especiais, criaturas de um nivel intelectual e cultural mt acima do nosso...nao é para o comum dos mortais.
uma utopia nos dias de hoje e nos de ontem...qe me lembre e qe saiba so jesus cristo pregava esta filosofia. acho qe os budistas a seguem...no tibete. admiro-os!
Deixar o que seduz a multidão é só estar identificado com o conteúdo da frase e querer desenvolver essa prática. Eu não estou mas háverá muita gente que estará, certamente. Não é necessário ter um elevado nível cultural nem sermos especiais .
Estou contra o comentário da MARIA.
MANUEL de BRITO/Porto
Afixado por: Manuel Brito em dezembro 5, 2006 12:09 PMManuel Brito,
Sêneca é a favor de uma filosofia da diferença,do novo,fator pelo qual pode ser uma espécie de poder. Assim, se você atuar só com o ter, pouco progresso terá se não o trabalho estafante e alienado.
Tudo bem que concordo contigo que hoje, esta razão que guia e tudo mais é mais uma (des)razão do que razão propriamente, motivo pelo qual brigas são travadas num conflito sem cessar. Assim é feito a própria sociedade.
Todos querem o poder, todos querem morrer por ele. É égide da "evolução", no absurdo mais humano que se há.
Caro Ehcsztein,
O teu erro é quando dizes: "... se você atuar só com o ter, pouco progresso terá se não o trabalho estafante e alienado."
Não entendo assim.
Actuando com o ter, eu tenho todo o progresso todo e, uma vez aqui, posso, se quiser, distribuir as mais valias pelos colaboradores e proporciono bem estar.
O trabalho é um actividade que se desempenha com alegria quando temos por objectivo praticar o bem com os resultados ele.
O Capital é imprescindível à sociedade do bem estar, tornando-se nocivo quando permanece naqueles que o investiram.
O melhor capital da humanidade é a bondade. Sê bondoso e reparte com os outros o teu excesso.
MANUEL BRITO/Porto
Afixado por: Manuel de Brito em dezembro 6, 2006 09:55 PM
Manuel Brito,
Este trabalho de que comentas tem uma conotação bem diferente do atual conceito,o do "trabalho forçado".
Tu acreditas que ainda exista um trabalho que não seja forçado,num mundo de constantes globalizaçÕes e de mais valia que gera,pouco em pouco, desigualdade social? Desculpe-me,mas seu conceito de trabalho é um tanto utópico para a "modernidade".
Não..eu vejo que estamos sofrendo de um crise estrutural no próprio trabalho,que se torna sem qualidade e num ter que efemeriza tudo ao seu redor,pois ele é o principal inimigo, destruindo pouco a pouco o nosso ser.
Afixado por: Ehcsztein em dezembro 7, 2006 02:09 AMAO EHCSZTEIN,
Concordo com a tua observação sobre o meu conceito de trabalho. Mas eu não concedo o meu aval à modernidade. E lutarei eternamente contra os trabalhos forçados. Sempre.
Manuel de Brito/Porto