dezembro 05, 2006

O Efeito do Ciúme

Quanto mais se fala do próprio ciúme, mais os lugares que desagradaram aparecem de todos os lados; as menores circunstâncias os mudam, e fazem sempre descobrir algo de novo. Essas novidades fazem rever sob outros aspectos o que se acreditava ter visto e pesado o suficiente; tenta-se apegar a uma opinião e não se apega a nada; tudo o que é mais oposto e está mais apagado apresenta-se a um só tempo; quer-se odiar e quer-se amar, mas ama-se ainda quando se odeia, e odeia-se ainda quando se ama; acredita-se em tudo, e duvida-se de tudo; tem-se vergonha e despeito por ter acreditado e duvidado; trabalha-se incessantemente para deter a própria opinião, e nunca ela é conduzida para um lugar fixo. (...) Não se é feliz o bastante para ousar crer no que se deseja, nem mesmo feliz o bastante também para ter a certeza do que se teme mais. Fica-se sujeito a uma incerteza eterna, que nos apresenta sucessivamente bens e males que nos escapam sempre.

La Rochefoucauld, in 'Máximas'

Publicado por pns em dezembro 5, 2006 09:00 AM
Comentários

O texto não se preocupa muito com a clareza. Não sei se o problema está no autor ou no tradutor. Provavelmente no autor. Embora gênios da literatura moralista, nem sempre tais sondadores da alma se lembram de que existem leitores que não gostam de charadas no lugar errado. Dito isso,o que o autor pretende é mostrar que quando o ciúme se apossa de um homem, ou de uma mulher, o inferno em vida se instalou. Em tudo - num suspiro, num olhar, num desvio de olhar, numa distração, num sair da sala (será que vai telefonar para o/a rival?)- o ciumento encontra uma "pista" para a certeza da infidelidade. Já ocorrida ou desejada. O melhor, nesse estado, é, podendo, gastar com a contratação do detetive,para ter a certeza; ou, não podendo, esperar que a "prova indiciária" se adense.Se a parte inconfiável é mulher, melhor será dizer a ela que chegou a hora de por as cartas na mesa, dando-lhe permissão para "dar o fora", porque não é tão importante assim ( mesmo que isso não seja verdade). Muitos não fazem isso porque a paixão dá mão à esperança e essa dupla sempre prefere fugir à realidade.É muito difícil enxergar algo que não agrada, se há uma mesmo remota chance de se enganar a si próprio.Maridos há que sabem a vida toda que a beldade consorte não morre de amores por ele. Mas vai levando...

Afixado por: Francisco C.P. Rodrigues em dezembro 5, 2006 02:22 PM

O ciúme é indispensável ao amor, isto no sentido em que se não sentirmos ciúmes por aquela mulher ou por aquele homem, conforme o caso… provavelmente não amaremos essa pessoa de verdade. Neste sentido, o sentimento de ciúme torna-se imprescindível à relação, desde que seja doseado. Mas como raramente o é, isto para não dizer mesmo impossível, tende a manifestar-se sob a forma de incerteza em relação aos sentimentos do outro. Esta incerteza faz com o sujeito enciumado se sinta inseguro levando-o a adoptar comportamentos diametralmente opostos, tal como faz referencia o autor: ama-se e odeia-se ao mesmo tempo, acredita-se em tudo e duvida-se de tudo… em casos extremos este efeito pode fazer com que a pessoa enciumada passe a imaginar cenários que estão completamente fora da realidade apreendida.
Só por curiosidade, estudos científicos revelam-nos que tanto as mulheres, como os homens, apresentam reacções diferentes perante situações de infidelidade. No que respeita as mulheres, estas tendem a ficar psicologicamente mais perturbadas perante a ideia de infidelidade emocional, enquanto que na maior parte dos homens se verifica o comportamento contrário, isto é, tendem a ficar psicologicamente mais perturbados perante a infidelidade sexual.

Afixado por: bucefalo em dezembro 6, 2006 03:53 PM

Francisco representou, pelo que parece por experiência própria, que é o ciúme.

E o cavalo Bucéfalo, utilizou dos resultados que a pobre ciência(mediante estudos feitos por psicólogos) chegou na estatística bobinha da infidelidade. É o que exatamente Rouchefoucauld disse: "o amor se completa com o ódio e o ódio com amor" . Sö odeia aquele que considera o outro, e por assim ser, o ama. Só ama aquele que de certo modo tem uma inveja do outro.
Amar é querer ser o outro,na pele e nas características.
Deveríamos dizer: "Já não amo esta mulher. Vou me casar com ela" e não o contrário. Aquele que verdadeira ama é o que mais perdura no relacionamento pelo hábito mútuo e não pelo amor,posto que não tem mais sede pela transmutação no outro,pelo querer ser outro e não você mesmo, evitando com isso o ciúme e muitas neuroses histéricas, problema pelo qual foi registrado inúmeros casos de mulheres nas clínicas psicanalíticas no final do século XIX.
O hábito tem de ser realizado de ambos os lados,para se estabelecer uma boa convivência.

Afixado por: Ehcsztein em dezembro 7, 2006 03:28 AM

Ehcsztein,

Não creio tanto dos hábitos..veja o meu comentário do dia 4 de dezembro de 2006 e pense a respeito.

Afixado por: Phil em dezembro 8, 2006 02:49 AM
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