dezembro 16, 2006

Nunca Exagerar

Grande matéria de consideração é não falar por superlativos, seja para não se expor a ofender a verdade, seja para não desdourar a sua cordura. As exagerações são prodigalidades do estimar, que dão início de curteza de conhecimento e gosto. A louvação desperta viva curiosidade, pica o desejo, mas depois, não equivalendo o valor ao apreço, como de ordinário acontece, a expectativa volta-se contra o engano e desforra-se no menosprezo pelo celebrado e por quem celebrou. Anda, pois, o cordo bem devagar, e mais quer pecar pelo pouco que pelo muito. Raras são as eminências: modere-se a estimativa. O encarecer é parente do mentir, e nele se perde o crédito de bom gosto, que é grande, e o de douto, que é maior.

Baltasar Gracián y Morales, in 'A Arte da Prudência'

Publicado por pns em dezembro 16, 2006 11:00 PM
Comentários

Não obstante aparentes pequenos senões de digitação - "dão início de curteza de conhecimento", em lugar de "indício de curteza..., e "cordo" que não se sabe bem o que seja - o pensamento de Gracián é especialmente benvindo, principalmente no mundo da televisão. Pelo menos no Brasil. Aqui, todo artista é "maravilhoso!", exaltado nos programas de domingo. Uma louvação sem fim, tão exagerada que até ridiculariza o elogiado. As realizações também são "MARAVILHOSAS!!!". Um pouco de moderação daria mais credibilidade ao elogio. Isso até ensejou uma piada americana que vale a pena repetir aqui: um mafioso contratou um advogado para defendê-lo em um juri. O advogado, discursando, repetia, aos berros: " O réu, senhores jurado, é um marido amantíssimo, pai exemplar, bondade insuperável, incapaz de um ato mínimo de desonestidade, um homem de uma pureza..." e por aí afora. A certo momento, o réu, vermelho de ódio, não se contendo, sussurou a um seu vizinho: " Vou matar esse canalha... Paguei uma nota preta a esse palhaço para me defender e o desgraçado está aí a defender outra pessoa!" Como disse Gracian, até para o elogio é preciso um pouco de critério.

Afixado por: Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues em dezembro 17, 2006 09:28 PM

E essa piada teria vindo do filme: O poderoso chefão - parte 2?

O exagero é o pai da discórdia.

Afixado por: Ehcsztein em dezembro 20, 2006 12:23 AM

Concordo plenamente e no mundo de hoje é comum esse tipo de comportamento, sempre queremos agradar e para isso às vezes exageramos um pouco.

Afixado por: Fátima Simões em dezembro 25, 2006 10:56 PM
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