Deixa-me dizer-te, meu caro, pode bem acontecer que vás através da vida sem saber que debaixo do teu nariz existe um livro no qual a tua vida é descrita em todo o detalhe. Aquilo do qual nunca te deste conta antes, vais relembrando aos poucos, assim que comeces a ler esse livro, e encontras e descobres... alguns livros tu lês e lês e não lhe consegues encontrar qualquer sentido ou lógica, por mais que tentes. São tão "espertos" que não consegues perceber uma palavra daquilo que dizem... Mas esse livro que talvez esteja logo debaixo do teu nariz, tu lês e sentes-te como se tivesses sido tu próprio a escrevê-lo, tal como - como é que hei-de dizer ? - tal como tivesses tomado posse do teu próprio coração - qualquer que este possa ser - e o tivesse virado do avesso de forma que as pessoas o consigam ver, e descrito com todos os detalhes - tal e qual como ele é!
E como isto é simples, meu Deus! Porquê, eu próprio poderia ter escrito este livro! Porquê, de facto, porquê é que eu próprio não escrevi este livro!
Fiodor Dostoievski, in "Pobre Gente"
Publicado por pns em janeiro 11, 2007 09:00 AM | TrackBackAdmirável este excerto de Dostoiesvky! O livro que "vem a ser" sempre foi um daqueles almejados por grandes escritores como Proust e aqui no exemplo Dostoiesky.
O livro é o retrato do escritor,mas deve ser também a sua imperfeição,já que apenas assim haverá chance de uma renovação ou de uma vontade para a escrita numa luz que se vê e nunca alcança de fato. O caminho é ermo e a visão se torna cada vez mais ampla e alongada para então através do processo da procura automaticamente se fazer o livro. Ou seja, o livro não´é aquilo que se faz,mas o caminho percorrido por aquilo que se tentou fazer.