Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. Concentram-se, fazem um esforço de contensão beata e lá conseguem. Esperam a graça e às vezes ela vem. Escrever é orar sem um deus para a oração. Porque o poder da divindade não passa apenas pela crença e é aí apenas uma modalidade de a fazer existir. Ela existe para os que não crêem, como expressão do sagrado sem divindade que a preencha. Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante.
Vergílio Ferreira, in "Pensar"
Publicado por pns em fevereiro 20, 2007 12:00 PM | TrackBackEste texto de Vírgílo Ferreira é um texto especulativo. O autor interroga-se e quer uma resposta sobre a necessidade que cada um de nós sente para escrever. O bom escritor tem necessidade de escrever todos os dias. A necessidade de escrever para o escritor é a mesma que o fundista de 10 000 metros tem para manter aforma. Ele não sabe que distância vai treinar mas vai treinar. Não interessa preocupar-mo-nos sobre o que se vai escrever; esse tema surge espontâneamente. Escrever é um acto de solidariedade para com os outros. È pensar por eles.
João B. Sousa
Afixado por: João B. Sousa em fevereiro 20, 2007 06:45 PMA escrita talvez seja exatamente aquilo que ele cita: "Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante."
Ou seja, a escrita é feita como se aquele papel,até então morto, pudesse de alguma forma falar contigo,ter vida.
E é o mistério do "vir a se descobrir" que se faz a escrita,culminando com a complexidade da obra de Poust, onde a descoberta não está no fim, mas no caminho percorrido.
Belo comentário Phil. E já agora o que eu quiz dizer é que Baudelaire temia cair na banalidade da arte modernamoderna em sentido lato. O Sr. Echensenstein não conseguiu alcançar essa. Voçê é muito mais perspectivista...
Afixado por: Manuel Barbosa em fevereiro 27, 2007 10:47 AMo Sr. manuel ainda foi asno em postar um comentário desse no local errado. O sr. Phil também foi muito sonhador (como sempre). O papel é papel porque ele é morto! Até porque se ele não estivesse morto não seria papel.
Escrever por necessidade. Escrevemos com sofreguidão,com os "punhos em sangue".
Não sei que lhe hei-de fazer Echzenstein... Você deve ter uma personalidade muito fascistóide...
Afixado por: Manuel Barbosa em março 3, 2007 11:13 AMConcordo com a opinião do colega comentarista Manuel e também agradeço o elogio ao meu comentário.
Às vezes, meu caro Ehcsztein, você parece como o Fierdischenko,um dos personagens de Dostoiesvky,que faz o papel de um palhaço que adora gerar desconforto nas pessoas. È realmente esta a sua intenção,ou será que possui alguma cegueira ao ponto de não ter a sensibilidade da poesia? (pareces a meu ver que detestas,ou melhor, não entende e o que não entende/inveja é o que o faz provocar).
Não percebes que os objetos podem se prestar como parte de nós,como a recordação de algo que nunca morre e que sempre ficará dentro de nossas memórias,num passado internalizado?
Deste modo, o papel tem vida,porque deixamos lá nossa marca de alguém que pensava aquela forma e que agora pensa de outra. E é naquela caligrafia que podemos saber todo o nosso universo interior de um tempo passado, agora apenas sossegado dentro de nós.
Há a escrita "com punhos de sangue" sim,mas não escrevemos apenas por necessidade de aliviar um estado de espírito. E quando nós queremos escrever por um estado de alegria? Serás que você nunca passou por esse momento? Somos feitos de ambas as partes. E daí que é construída a essência nesse percurso.
Dizer que é apenas os "punhos de sangue" é ser radical demais.
Afixado por: Phil em março 3, 2007 05:52 PM"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente."
Ser sonhador é ser um pobre coitado. Tenho dó de ti,meu epiléptico e idiota Míchkin (e que obra mais chula você foi recorrer,hein!).
Afixado por: Ehcsztein em março 6, 2007 04:29 PMGosto desse livro. Sou humanista, coisa que tu não és.
E não vamos aqui discutir quem está certo ou errado,porque talvez ambos estejam errados em defender um só lado, ao invés de unir ambas as partes.
No livro, até Gânia e mesmo Fierdischenko chegou um dia a se arrepender por aquilo que faziam.
Meu caro, Ehcsztein, eu aguardo que um dia isso também ocorra com você.