Um pouco de trabalho, repetido trezentas e sessenta e cinco vezes, dá trezentas e sessenta e cinco vezes um pouco de dinheiro, isto é, uma soma enorme. Ao mesmo tempo, a glória está feita.
Do mesmo modo, uma porção de pequenos gozos compõem a felicidade. Criar uma banalidade, é o génio. Devo criar uma banalidade.
Charles Baudelaire, in "Diário Íntimo"
Publicado por pns em fevereiro 21, 2007 09:00 AM | TrackBackEsta citação traz-nos um texto que revela genialidade.
Estava Baudelaire ao sério... ou a gozar principescamente?...
Ou apenas demonstrava o seu desânimo por algo que podia ser a magra parcela de proventos que tirava do seu árduo e contínuo labor?...
"Devo criar uma banalidade"... Que subtil ironia, que remate genial!
Depois de ler esta frase, voltar a ler as que a precedem revela uma engenharia notável da expressão. Começa por apresentar um raciccínio aparenetemente lógico, mas tocado de um benévolo exagero. Logo o prágrafo seguinte exibe uma analogia, uma aplicação ao foro emocional da primeira (e materialista) proposição.
E é então que apresenta a mais caricata "conclusão" , para que fez concorrer o nosso pensamento ("Criar uma banalidade, é op génio"), seguida da mais genial resolução daí decorrente: "Devo criar uma banalidade".
A banalidade do meu comentário é uma perfeita banalidade - é pura, real e chata. A banalidade de Baudelaire é falsa, é má, é... puro génio!...
(Desculpem as gralhas nos meus comentários. Tenho que começar a escrever isto com o Flip montado, senão é o descalabro, que disléxico digital que eu saí!...)
Afixado por: WiseMax em fevereiro 22, 2007 07:40 PMSaiu mal o post Max mas parece-me que o que Baudelaire quer dizer é que deve criar uma Banalidade "afim de criar Arte Moderna". Ele, como crítico de artes plásticas e afins fartou-se de sugerir que a Arte Moderna era de uma enorme Banalidade.
Afixado por: Manuel Barbosa em fevereiro 23, 2007 10:49 AMCreio que WiseMax conseguiu tocar o gênio de Baudelaire, na sua mais alta embriaguez,ao contrário do Manuel...
O que se restringe aos nichos das banalidades? Banal é ser chato e repetitivo? A do vício Dionisíaco,onde este é a prova da morte pela repetição sucessiva?
Que essência é essa de que Baudelaire vos fala travestida de Banalidade? A da repreensão das inovações artítisticas,como sugeriu o comentarista Manuel?
Seria essa essência em que ele trabalha, feita nas suas minúcias,da arte do simplório e do desprezado socialmente? É como se ele botasse uma lupa sobre um certo ponto e de lá visse todo um universo concentrado e diluído?
Destas perguntas eu realmente não intento a responder. Apenas a questionar-me até que ponto a embriaguez de Baudelaire serve para a arte e até que ponto a arte é reflexo da vida e vice-versa(visto sobre o ponto de vista da embriaguez).
Afixado por: Phil em fevereiro 26, 2007 05:30 PM