março 26, 2007

O Livro Bem Escrito

Que ridículo e mesmo estúpido dizer-se de um livro que está bem escrito. Não é «bem escrito» que está. Está é sentido originalmente, original nas observações, inteligente na reflexão. É por isso que não se pode imitar. Pode-se é ser original de outra maneira. Há realmente livros que são apenas «bem escritos». São os livros banais, com palavras trabalhadas ao torno, frases que se pretendem «despojadas», reduzidas ao «essencial», e cruas. Mas como o que nelas está não representa um sentir originário, nem uma observação imprevista, nem uma reflexão que nos surpreenda pela justeza e profundidade, o que delas resulta é uma construção pretensiosa, estéril e quase sempre irritante. Decerto um romance (como a poesia segundo Mallarmé e como creio já ter dito), faz-se com palavras. Pois com que é que havia de fazer-se? Mas antes disso faz-se com o impulso animador a essas palavras e que assim não passa bem por elas mas por entre elas, fazendo delas apenas um apoio para passar além, como o som passa pelas cordas mas existe por entre elas e é nesse som o indizível que nos emociona. O que nos fica de um livro «bem escrito» é essa emoção que já não lembra as palavras e vive por si.

Eis porque tal livro é inimitável e apenas poderá repetir-se, ou seja plagiar-se. Imitar verdadeiramente esse livro é recompor uma emoção afim e inventar outras palavras que traduzam esse sentir, ou seja que lhe sirvam de pretexto ou estratagema para que esse sentir (e pensar/sentir) se realize como a música nas cordas de um instrumento. O escritor medíocre imagina que todo o seu trabalho deve incindir no trabalhar uma frase. Ora não é a frase que tem de se trabalhar: é aquilo que há-de passar por ela. Os autores célebres que trabalharam a frase, na realidade trabalharam apenas aquilo que haviam de exprimir; testaram na frase a realização de uma expressão. O escritor medíocre dá como já adquirido o que haveria a dizer e todo o seu esforço é secar o período, burilar ou envernizar o vocábulo. E no fim de contas, este é que «escreve bem». Mas quem assim escreve bem, escreve bastante mal. Não digo rasamente que o «conteúdo» preceda a sua «expressão». Mas o que preexiste à expressão não é um puro nada. Exprimir é operar e concretizar esse algo. Mas esse algo existe. Escrever bem, como se diz, é realizar pela escrita um «bem» que aí se revela mas que está antes e depois disso em que se revela. Escreve-se bem com o espírito e a sensibilidade - não com um dicionário. Embora seja no dicionário que está toda a obra-prima. Como na pedra está toda a melhor escultura.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 4'

Publicado por pns em março 26, 2007 12:05 AM | TrackBack
Comentários

"Escreve-se bem com o espírito e a sensibilidade - não com um dicionário. Embora seja no dicionário que está toda a obra-prima. Como na pedra está toda a melhor escultura."

Está nesta afirmação, aparentemente banal e lapalissiana uma constatação que ao homem comum como eu parece óbvia (não se pode tirar de lado nenhum o que lá não está, e muito menos o génio), mas que aos olhos de muitos eruditos parece algo irrelevante.

O verdadeiro combate entre os adeptos da primazia da forma sobre os que advogam o primado dos conteúdos há muito que foi resolvido nas artes plásticas em favor da forma, desde que Marcel Duchamp despachou um urinol na cara do mundo ("I threw a bottle rack and urinal in their faces as a challenge and now they admire them for their aesthetic beauty") e se tornou admirado por isso. Teorizou (e levou a sua avante) que os "conteúdos" são da responsabilidade do espectador e que ao artista compete apenas providenciar o "gatilho" dessas experiências individuais ou colectivas. Nunca me libertei da sensação de que ele gozou primeiro e só teorizou depois, como eu faço quando me meto em enrascadas e depois "me limpo" com uma razoável dose de improvisação.

Mas, na Literatura, tem existido um saudável equilíbrio entre a forma e o conteúdo, equilíbrio esse que ainda existiu na fotografia até ao advento do Photoshop, que a transformou em "pintura".

Como último bastião artístico do equilibrio entre forma e conteúdo, passadas que foram as esterilidades formais do barroco e os exageros de "reportagem realista" do séc. XIX, vemos claramente que, em Literatura e em termos de reconhecimento, os géneros menores se ligam ao conteúdo fantasioso e narrativo, sem preocupações de originalidade de expressão ou da sua cultivação (exactamente a massa primordial dos "best-sellers") e os maiores ao reino do emocional, em que, sem conteúdo narrativo, temos como maior exemplo a poesia e com conteúdo narrativo se regista o maior expoente no romance, e também no conto ou novela, cuja arte ainda é mais sofisticada, pela dificuldade de revestir um conteúdo com formas originais quando elas são mais sintéticas, logo obrigadas a uma maior plenitude e eficácia, pelo pouco espaço de que dispõem para se manifestar.

Não tenho dúvidas de que o conteúdo jamais poderá ser alheado da obra literária. Pois não é a palavra ela própria um eterno misto indissociável de abstracção e representação?...

Retirar da palavra o conteúdo representativo é quase impossível (é possível, mas é estéril). A abstração só tem sentido quando cotada com o real, com a referência - porque a abstração não existe "de per se", mas sempre como uma representação generalizada de algo.
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E chegamos ao âmago do que diz Vergílio: o fruto existe porque organizado em torno da semente.
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No reino do Verbo, e Forma serve para envolver Algo. Ou está lá e segura a Forma no seu lugar... ou não está e a forma é algo de incongruente e supérfluo.

Vergílio Ferreira é óbvio, mas é um Sábio. Quem o leu entende.


Afixado por: WiseMax em março 26, 2007 11:31 AM
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