O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, porque nele há o desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender. Sobre esse desejo são fundadas as religiões e as ideologias. Estas não se podem conciliar com o romance a não ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apodítico e dogmático. Exigem que alguém tenha razão: ou Anna Karenina é vítima de um déspota limitado, ou Karenine é vítima de uma mulher imoral; ou então K., inocente, é esmagado por um tribunal injusto, ou então, por trás do tribunal, está escondida a justiça divina e K. é culpado.
Neste «ou então-ou então» está contida a incapacidade de suportar a relatividade essencial das coisas humanas, a incapacidade de olhar de frente a ausência do Juiz supremo. Por causa desta incapacidade, a sabedoria do romance (a sabedoria da incerteza) é difícil de aceitar e de compreender.
Milan Kundera, in "A Arte do Romance"
Publicado por pns em abril 6, 2007 01:00 PM | TrackBackquanto mais sabemos, mais sabemos que pouco sabemos
Afixado por: Carlos Rodrigues em abril 7, 2007 11:45 PMBelíssimo! E é desta incerteza que o acaso se monta,na sabedoria de uma certeza, que primeiro é acaso sobre os olhos da certeza(mesmo que imaginada). É assim que pensava Proust ao escrever La Recherche.
Afixado por: Phil em abril 15, 2007 05:06 AMBravo Bravíssimo!
Afixado por: rprota em julho 21, 2008 10:23 PM