Desde que, com a ajuda do cinema, das soap operas e do horney, a psicologia profunda penetra nos últimos rincões, a cultura organizada corta aos homens o acesso à derradeira possibilidade da experiência de si mesmo. E esclarecimento já pronto transforma não só a reflexão espontânea, mas o discernimento analítico, cuja força é igual à energia e ao sofrimento com que eles se obtêm, em produtos de massas, e os dolorosos segredos da história individual, que o método ortodoxo se inclina já a reduzir a fórmulas, em vulgares convenções.
Até a própria dissolução das racionalizações se torna racionalização. Em vez de realizar o trabalho de autognose, os endoutrinados adquirem a capacidade de subsumir todos os conflitos em conceitos como complexo de inferioridade, dependência materna, extrovertido e introvertido, que, no fundo, são pouco menos que incompreensíveis. O horror em face ao abismo do eu é eliminado mediante a consciência de que não se trata mais do que uma artrite ou de sinus troubles.
Os conflitos perdem assim o seu aspecto ameaçador. São aceites; não sanados, mas encaixados somente na superfície da vida normalizada como seu ingrediente inevitável. São, ao mesmo tempo, absorvidos como um mal universal pelo mecanismo da imediata identificação do indivíduo com a instância social; tal mecanismo já há muito definiu as condutas pretensamente normais. Em vez da catarse, cujo êxito é, de qualquer modo, duvidoso, surge a conquista do prazer de até na própria debilidade ser um exemplar da maioria e conseguir assim não tanto, como outrora os internados nos sanatórios, o prestígio do interessante estado patológico quanto, justamente em virtude daquelas deficiências, de se mostrar como nela integrado e transferir para si o poder e a grandeza do colectivo. O narcisismo, que com a decadência do eu fica privado do seu objecto libidinal, é substituído pelo prazer masoquista de não mais ser um eu, e a geração ascendente vela pela sua ausência de eu com mais zelo do que por algum dos seus bens, como se fosse uma posse comum e duradoura.
Theodore Adorno, in "Minima Moralia"
Publicado por pns em abril 30, 2007 09:00 AM | TrackBackEntendo a crítica tecida nas entrelinhas por Adorno,quanto a própria forma de se pensar o eu de hoje,baseado na angústia do objeto perdido.
Contudo,confesso que não entendi o título do excerto: "Falar sempre, pensar nunca".
Afixado por: Phil em abril 30, 2007 10:02 PMAdorno enuncia que é tal o progresso da cultura que não há mais nenhum sentimento por escrutinar, por explicar numa narratica coerente. Assim, a experiência de sentir cada emoção na singularidade da sua ocorrência, pensar a estória única em que se justifica, a experiência de pensar é substituída pelo puro fraseamento e refraseamento do «já vivido».
Afixado por: vbm em maio 1, 2007 04:04 PM