A tragédia é a cristalização da massa humana, tão perigosa como a estagnação do espírito do homem que se torna académico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro próximo - em relações antropológicas o próximo leva geralmente centenas de anos - transformar-se-á num novo espectáculo de jardim zoológico. Em vez de jaula e aldeias de símios, ele terá balneários públicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos nocturnos. Dará palmas em delírio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num acto máximo de inteligência paquidérmica. Terá circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o tédio da família aos domingos, circulará repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem é diferente da anterior.
E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes colectividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha directa de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes, de um Plutarco.
A humanidade dá-nos, assim, um triste espectáculo de andar para trás, melhora em lepra social, colectiviza-se e baixa logo na escala humana, retrocedendo para uma classe entre os antropopitecos e o erectus, a que chamarei Màchomem.
E todos os dias o mundo assiste ao melancólico desfile de milhares de seres que passam a Màchomens, na satisfação plena da sua jaula colectiva sem grades. E como os macacos, os elefantes, os cães e mais bicharia, os Màchomens passam imediatamente a falar a sua língua universal, sem necessidade de tradução, estendendo actividades físicas e associativas desde a Polinésia ao sul de Itália, trocando saudações, mensagens, hinos, desfiles, comícios, e tantas outras indigestões apaixonadas dos grupos de seres que deixaram de ter fronteiras e vocábulos regionais. O cão que ladra nas margens do Danúbio assemelha-se aos poderosos Serra da Estrela, sem distinção de maior que nos faça ter preferências por qualquer um destes ladrares. O Màchomem da Amadora em muito pouco se virá a distinguir do Màchomem de Detroit, Chicago, Manchester, Dusseldorf.
Ruben A., in "O Mundo À Minha Procura I"
Publicado por pns em novembro 12, 2007 12:05 AM | TrackBackConheço o Ruben A. há muito tempo. É perfeitamente certo o que ele diz. Somos símios aperfeiçoados! Não conheço emm Portugal um escritor que tenha ido tão longe e tenha sido também tão corajoso. Ruben tinha a censura salazarista em cima e nem sei como é que esta obra pode ser publicada!
Afixado por: Manuel Pereira Barbosa em novembro 12, 2007 10:08 AMO texto parece-me uma boa autocrítica. Ruben A. melhor que ninguém saberá do que fala. Talvez por isso tenha direito a um estatuto de "símio mais aperfeiçoado que os outros".
Só tenho pena de não ter um espelho mágico lá em casa.
- Espelho meu... espelho meu... existe algum símio mais aperfeiçoado que eu?
Boa noite, como é bom ler estes grandes nomes do passado, isso mostra que, se tem uma coisa que não envelhece nunca, é o pensamento, a cada dia que passa, são muito mais interessantes e curiosos.
Afixado por: roberto em novembro 13, 2007 05:17 AM