Há escritores, dissera eu a Gambetti, que entusiasmam o leitor, quando este os lê pela segunda vez, em muito mais alto grau do que na primeira vez, com Kafka sempre me acontece assim. Conservo Kafka na memória como um grande escritor, tinha eu dito a Gambetti, mas, ao relê-lo, fiquei absolutamente com a impressão de ter lido um ainda muito maior. Não há muitos escritores que, à segunda leitura, se tornem mais importantes, mais admiráveis, na sua maior parte lemo-los pela segunda vez e envergonhamo-nos de alguma vez os ter lido, com centenas de escritores assim nos acontece, mas não com Kafka nem com os grandes russos, Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev, Lermontov, nem com Proust, com Flaubert, com Sartre, que para mim se contam entre os maiores de todos. Não me parece que seja mau o método de ler uma segunda vez os escritores que tínhamos lido uma vez e nos tinham impressionado, pois eles são nesse caso ou ainda muito maiores, muito mais importantes, ou a sua importância desvanece-se por completo.
Thomas Bernhard, in 'Extinção'
Publicado por pns em dezembro 4, 2007 09:00 AM | TrackBackBastante natural o comentário do nosso amigo Thomas. Porém diria que somente os homens que estão em constante transformação é que conseguem na segunda ir para a terceira ou ao contrário tentar esquecer que tentou encontrar algo que disesse alguma coisa na primeira.
Abraços
Amal
Faltou Thomas ler Schopenhauer. Este dizia: "A primeira vez é da inexperiência".
Afixado por: Ehcsztein em dezembro 9, 2007 05:43 AMSim, completamente de acordo desde a primeira letra até a ultima, sábias palavras e boa observação com a qual me sinto completamente identificada.
Obrigada por tão agradavel espaço.