Seja qual for a diferença que exista entre os bons e os maus exemplos, convenhamos que ambos dão mau resultado. Nem sequer sei se os crimes de Tibério ou de Nero nos afastam mais dos vícios do que os exemplos paradigmáticos dos grandes homens que supostamente nos encaminham para a virtude. Veja-se como a valentia de Alexandre produziu gabarolas! Veja-se até que ponto a glória de César permitiu actos antipáticos! Repare-se como Roma e Esparta louvaram virtudes selvagens! Diógenes criou tantos filósofos importunos, Cícero citou tagarelas, Pompónio Ático citou pessoas medíocres e preguiçosas, Mário e Sila, pessoas vingativas, Lucullus, pessoas voluptuosas, Alcibíades e António citaram debochados e Capão citou pessoas teimosas! Todos estes famosos protótipos produziram um número enorme de más reproduções. As virtudes são vizinhas dos vícios. Os exemplos são guias que nos desencaminham com frequência e, como estamos tão cheios de mentiras, não deixamos de usá-las tanto para nos afastarmos do caminho da virtude como para segui-lo.
La Rochefoucauld, in 'Reflexões'
Publicado por pns em fevereiro 28, 2008 09:30 AM | TrackBackPois não concordo...
exemplos são úteis... e necessários
Que cinismo, o de Rochefoucauld!
(e cheio de erros de raciocínio... acho eu...)
Eu concordo em parte e perçebo o que ele quiz dizer com isto. Muitas vezes os exemplos que temos levam-nos a seguir um determinado caminho que não é genuinamente o nosso. Não quer dizer que aconteça sempre, mas algumas vezes acontece e quando isso acontece la estamos nós a pensar: «Eh Pá , porque é que eu nao segui o meu instinto??? »
Afixado por: Julio Guerra em fevereiro 28, 2008 09:46 PM