outubro 01, 2008

Um Escritor é Uma Contradição

Um escritor é uma coisa curiosa. É uma contradição e, também, um contra-senso. Escrever também é não falar. É calar. É gritar sem ruído. Um escritor é, muitas vezes, repousante: ouve muito. Não fala muito porque é impossível falar a alguém de um livro que se escreveu e, sobretudo, de um livro que se está a escrever.
É impossível. É o oposto do cinema, o oposto do teatro e de outros espectáculos. É o oposto de todas as leituras. É o mais difícil de tudo. É o pior. Porque um livro é o desconhecido, é a noite, é fechado, é assim. É o livro que avança, que cresce, que avança em direcções que julgávamos ter explorado, que avança em direcção ao seu próprio destino e ao do seu autor, então aniquilado pela sua publicação: a sua separação dele, do livro sonhado, como da criança recém-nascida, sempre a mais amada.

Marguerite Duras, in "Escrever"

Publicado por pns em outubro 1, 2008 11:00 PM
Comentários

Li este livro há algum tempo e devo dizer que este trecho é um dos mais significativos de todo o livro - recordo-me até o número da página: 26.

Poucos escritores - dentre eles Rilke,Clarice Lispector e Kafka (dentre outros) - souberam exatamente se expressar artisticamente. Marguerite afirma ser a solidão a condição imprescindível do escritor, aquela que "contorna a dor" e diz necessariamente "a verdade", "sem ter medo de ser incompreensível" - apesar de considerar "a impossibilidade do relato em certos momentos".

No final do livro: "Escrever significa tentar saber aquilo que se escreveria se fôssemos escrever - só se pode saber depois - antes, é a pergunta mais perigosa que se pode fazer. Mas também a mais comum".

Interessante como Margarite elabora a sua escrita como uma necessidade não do a priori,mas do posteriori...

Por fim, o parágrafo mais intrigante do livro que problematiza a própria vontade da escrita: "E mesmo aquilo que Lacan disse a respeito do livro, eu nunca cheguei a entender direito. Lacan me deixava atordoada. E aquela sua frase: 'Ela não deve saber que escreve, nem aquilo que escreve. Porque ela se perderia. E isso seria uma catástrofe.' Esta frase tornou-se, para mim, uma espécie de identidade de princípio, um 'direito de dizer' totalmente ignorado pelas mulheres."

Creio se tratar de obra mais significativa até que os famosos "A Dor" e "O Amante". Essencialíssimos para escritores mirins ou curiosos da arte da escrita.

Afixado por: Phil em outubro 13, 2008 02:40 AM
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