outubro 24, 2008

Inspiração e Perseverança no Homem que Pensa

Não há nada de mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: «pensando ininterruptamente nelas». E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São, em grande parte, o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio, uma perseverança assim! Mas, vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco, apenas com a diferença de que não fazemos tantas tentativas ao acaso, mas sabemos já, por experiência, mais ou menos como fazer as coisas. E se uma cabeça inteligente, como é óbvio, revela muito mais habilidade e experiência nas voltas que dá do que uma cabeça estúpida, o momento em que consegue passar não é para ela menos surpreendente; de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto de as ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor. A essa sensação desconcertante chamamos nós hoje em dia intuição, depois de, antes, outros lhe terem chamado inspiração, e julgamos ver nisso algo de suprapessoal; mas trata-se antes de qualquer coisa de impessoal, concretamente da afinidade e da coerência das próprias coisas que se encontram na nossa cabeça.
Quanto melhor a cabeça, tanto menos se dará por ela. É por isso que o pensamento, enquanto estiver em movimento, é um estado deplorável, semelhante a uma cólica de todas as circunvoluções do cérebro; e quando chega ao fim já não tem a forma do processo de pensamento tal como o experienciamos, mas a da coisa já pensada, que, infelizmente, é uma forma impessoal, porque então o pensamento se volta para fora e está preparado para comunicar com o mundo. Quando uma pessoa pensa, torna-se por assim dizer impossível captar o momento entre o pessoal e o impessoal, e é certamente por isso que o pensar é um embaraço tão grande para os escritores que eles preferem evitá-lo.

Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

Publicado por pns em outubro 24, 2008 09:00 AM
Comentários

É surpreendente a análise formulada com tanta clareza. Estou contente por tê-la conhecido! Especialmente por gostar de ler, aprender.

Afixado por: lauro em outubro 25, 2008 02:11 PM

Curioso excerto de Musil em um livro admirável.
Realmente é muito difícil descrever um homem enquanto produtor de uma obra de arte. Pensemos num Rodin, por exemplo. Como descrever aquela mão e aqueles olhos delimitando aquela matéria prima?
Rilke descreve maravilhosamente a cena,contudo não podemos deixar de esquecer que aquela é uma descrição filtrada pela lente Rilke que Rodin não concordaria por completo. Daí aquela idéia maravilhosa de Pessoa quando este fala sobre um princípio de incomunibilidade existente entre os homens.

Contrariamente ao que pensa Musil, creio que a verdadeira obra está não na sua finalização e sim na sua criação,ou seja, o início e o percurso (o meio). É justamente esta indiscenibilidade entre sujeito e objeto, inconsciente e consciente que gera um mistério tão delicioso e superior ao próprio trabalho. Talvez Musil queira ter dito sobre as dificuldade em se iniciar as primeiras linhas de um trabalho. Dependendo do artista, haverá uma dificuldade, todavia a própria inspiração inata ao artista, faz com que o trabalho corra como um jato, sem preocupações formais ou estéticas. Basta averiguarmos suas obras:grande parte são escritas às pressas com garranchos mil's, como se algo estivesse esvaindo por entre os dedos.

Para nós que estamos do lado de fora, será sempre incognoscível sabermos exatamente o que aquele sujeito promove como "desregramento de seus sentidos" para seu ato da criação (como já dizia Rimbaud).

Afixado por: Phil Silva em outubro 27, 2008 04:55 AM
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