O prazer de maltratar outrém é distinto da crueldade. Esta consiste em encontrar satisfação na compaixão, e atinge o ponto culminante quando a compaixão chega a extremos, como quando maltratamos os que amamos; todavia, se fosse alguém, que não nós, a magoar os que amamos, então ficávamos furiosos, e a compaixão tornar-se-nos-ia dolorosa; mas somos nós a amá-los e somos nós a magoá-los...
A compaixão exerce uma infinita atenção: a contradição de dois instintos fortes e opostos actua em nós como atractivo supremo.
(...) A crueldade e o prazer da compaixão:
A compaixão aumenta quanto mais conhecemos e mais amamos intensamente quem é objecto dela. Portanto, aquele que trata com crueldade o objecto do seu amor retira da crueldade - que amplia a compaixão - a máxima satisfação.
Quando, acima de tudo, nos amamos a nós próprios, o maior prazer que encontramos - por meio da compaixão - pode levar-nos a mostrarmo-nos cruéis para connosco. Heróico da nossa parte é o esforço de completa identificação com aquilo que nos é contrário. A metamorfose do Diabo em Deus representa esse grau de crueldade.
Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder'
Publicado por pns em outubro 29, 2008 11:00 PMUm tema polêmico e eternamente nebuloso.
Lembrou-me um excerto do Alberto Caiero em que ele diz:
"Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu-não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz."
Impossível não reconhecer Nietzsche, na última frase extremamente ácida:
"A metamorfose do Diabo em Deus representa esse grau de crueldade."