Uma tentação imediata do nosso tempo é o desperdício. Não é só resultado duma invenção constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como é, sobretudo, uma forma de aristocracia técnica. O tecnocrata, novo aristocrata da inteligência artificial, dos números e dos computadores, propõe uma sociedade de dissipação. Propõe-na na medida em que favorece os métodos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, as árvores que dão fruto três vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais. Para quê? Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperdícios de cozinha ou de vestuário sirvam afinal para descrever o bluff da produtividade.
Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'
Publicado por pns em novembro 30, 2008 02:00 PMParece-me que Agustina vai, aí, ao cerne da questão. Desde pequeninos somos adestrados nessa cultura do desperdício: Comprar, consumir, ter, exibir. E tudo é justificado em nome dessa produtividade fictícia. Isso está relacionado ao chamado "crescimento econômico", que é uma das maiores balelas impingidas na sociedade moderna.
Como pode haver crescimento sem melhoria na qualidade de vida? E mais, de que adianta o 'crescimento" material sem um correspondente crescimento interior?