Na sua maior parte a história faz-se sem autores. Não acontece a partir de um centro, mas da periferia. De pequenas causas. Talvez não seja tão difícil como se pensa fazer do homem gótico ou do grego antigo o homem da civilização moderna. Porque a natureza humana é tão capaz do canibalismo como da crítica da razão pura; é capaz de realizar as duas coisas com as mesmas convicções e as mesmas qualidades, se as circunstâncias forem propícias, e nesses processos a grandes diferenças externas correspondem diferenças internas mínimas.
(...) O caminho da historia não é o de uma bola de bilhar que, uma vez jogada, percorre uma determinada trajectória; assemelha-se antes ao caminho das nuvens, ou ao de um vagabundo a deambular pelas vielas, que se distrai a observar, aqui uma sombra, ali um magote de gente, mais adiante o recorte curioso das fachadas, até que por fim chega a um ponto que não conhece e por onde nem tencionava passar. Há no decurso da história universal um certo erro de percurso. O presente é sempre como a última casa de uma cidade, que de certo modo já não faz bem parte do casario dessa cidade. Cada geração pergunta, com espanto: Quem sou eu, e quem foram os meus antepassados? Devia antes perguntar: Onde estou? e partir do princípio de que os seus antepassados não eram diferentes, apenas estavam num lugar diferente. Se assim fosse, já teríamos feito alguns progressos.
Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'
Publicado por pns em março 21, 2009 06:00 PMBrilhante excerto,principalmente aquele que diz: "O caminho da historia não é o de uma bola de bilhar que, uma vez jogada, percorre uma determinada trajetória; assemelha-se antes ao caminho das nuvens, ou ao de um vagabundo a deambular pelas vielas, que se distrai a observar, aqui uma sombra, ali um magote de gente, mais adiante o recorte curioso das fachadas, até que por fim chega a um ponto que não conhece e por onde nem tencionava passar."
Suponho que seje uma viagem que muitas vezes não vale a mala com as roupas,justamente por não percorrer uma trajetória... Num mundo onde o conhecimento e o silêncio são virulentos, vemos a necessidade cada vez maior de um certo trajeto. Hoje, após as sucessivas crises de valores sofridas em ambos os séculos, muito se considera sobre a existência e consentimento (apesar de muito distraidamente) dos "lugares" nas diferentes fases da história, contudo parece que esquecemos da pergunta "quem sou?" e "onde estou?"...