abril 20, 2009

A Imperfeição dos Nossos Sentidos

Se os nossos sentidos fossem perfeitos, não precisávamos de inteligência; nem as ideias abstractas de nada nos serviriam. A imperfeição dos nossos sentidos faz com que não concordemos em absoluto sobre um objecto ou um facto do exterior. Nas ideias abstractas concordamos em absoluto.
Dois homens não vêem uma mesa da mesma maneira; mas ambos entendem a palavra «mesa» da mesma maneira. Só querendo visualizar uma coisa é que divergirão; isso, porém, não é a ideia abstracta da mesa.

Fernando Pessoa, in 'Ricardo Reis - Prosa'

Publicado por pns em abril 20, 2009 01:00 PM
Comentários

Com a devida permissão, e ousadia, vou discordar do grande gênio, que tanto admiro, e lamento já não estar entre nós, para responder.
Mas os nossos sentidos são perfeitos, e precisamos da inteligência, justamente para extrair dos sentidos à percepção necessária à compreensão das coisas.
E sendo tal compreensão ilimitada, posto que os sentidos de cada indivíduo, concebe de forma diversa a realidade captada.
Isto explica, o porque cada homem, enxerga o mesmo fato, sobre ângulos tão diferentes, como se estivessem diantes de diferentes realidades.
Assim as pessoas pensam no que falam, e acham que o seu interlocutor está concebendo cada palavra com o mesmo sentido que foi dito, nisto reside o problema,ou seja, fazer-se entender, e o outro conseguir extrair o verdadeiro sentido de cada palavra expressada, o que torna a maioria dos diálogos ininteligíveis.
É importante dizer não há imperfeição nos sentidos, para que os homens passassem a refletir sobre o sentido das palavras que ouviram, ou que disseram a cada dia.

Afixado por: Antonio Hatti em abril 21, 2009 04:00 AM

Prezado Antonio,

Ponho minhas mãos e meus pés no fogo por Pessoa. Talvez não tenhas compreendido bem o que ele verdadeiramente tentou dizer,assim como eu tampouco chego a entendê-lo em plenitude (o que é uma norma básica de toda leitura).
Mas vejamos: para ele a necessidade da inteligência é uma prova de que os sentidos serão eternamente imperfeitos. Aliás, como definir uma flor senão pelos moldes intelectuais e simbólicos pré-figurados no âmbito social, disto que classificamos por pétala,caule,folha,etc? De fato estaremos sempre a acatar certas convenções locais ou universais com uma feição religiosa no rosto, pouco se importando com o porquê daquilo. Talvez o próprio inesgotar das condições produtivas humanas terminem por soterrar/sufocar questões mais essenciais. Vergilio Ferreira dizia: "nos preocupamos mais com as questões de respostas pré-formuladas do que com as interrogações mais profundas". Pessoa buscava esta interrogação,isto que vem de dentro pra fora sob camadas mais obscuras de nosso ser.

Se há realmente uma perfeição de nossos sentidos, para que a reflexão? Não precisaríamos da inteligência e muito menos das ideias abstratas. Seria a morte, a permanência eterna, posicionamento particular à figura de Álvaro de Campos. É imprescindível estabelecermos a ilusão,o fingir (verbo proveniente do latim que significa forjar) para só então podermos, diante da imperfeição de nossos sentidos, não concordar com algo (ao visualizar algo com a intuição e esperteza pessoais a fim de deformar a realidade, criando algo novo e próprio) ou mesmo concordar em absoluto,ao aceitar o abstrato (cegando-se aos moldes sociais, sujeitando os olhos a um simples padrão).
Vale aqui ressaltar que para Pessoa não existe uma verdade,senão uma verossimilhança.
A perfeita imperfeição dos sentidos viria apenas com Alberto Caeiro e sua filosofia instantânea e fenomenológica de ver o mundo além da abstração, dos tratados filosóficos,intelecto ou qualquer forma de subjetivização, pois teria ele apenas o desejo de alcançar o inalcançável estrangeirismo das coisas-em-si,a pureza imperfeita (e fingida) para além do sentir.

Afixado por: Phil Silva em abril 24, 2009 07:59 AM

se os nosso sentidos ia ser legal

Afixado por: matheus em novembro 11, 2009 08:08 PM
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