A cultura não se obtém com um labor obtuso e intensivo e é antes o produto da liberdade e da ociosidade exterior. Não se adquire, respira-se. O que trabalha para ela são os elementos ocultos. Uma secreta aplicação dos sentidos e do espírito, conciliável com um devaneio quase total em aparência, solicita diariamente as riquezas dessa cultura, podendo dizer-se que o eleito a adquire a dormir. Isto porque é necessário ser dúctil para se poder ser instruído. Ninguém pode adquirir o que não possui ao nascer, nem ambicionar o que lhe é estranho. Quem é feito de madeira ordinária nunca se afinará, porque quem se afina nunca foi grosseiro. Nesta matéria, é também muito difícil traçar uma linha de separação nítida entre o mérito pessoal e aquilo que se chama o favor das circunstâncias.
Thomas Mann, in "As Confissões de Félix Krull"
Publicado por pns em abril 24, 2009 11:00 PMTriste e verdadeira passagem. Mann parece ter bebido alguma coisa de Freud.
Contudo ainda não fica muito claro para mim o que ele chamaria de respirar cultura num tempo tão dinâmico e plural como o nosso,onde as crianças terminam passando por um processo intenso de massificação de conteúdo dos enlatados de tv ou das bobeiragens da internet.
Decerto ele está fazendo alusão à antiga boa e erudita cultura germânica,esta que com todas as circunstâncias atuais,não fazem/jamais irão fazem de toda esta degradação e morbidez social.
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