Antigamente as pessoas queriam criar-se uma reputação: isso já não basta, a feira tornou-se demasiado vasta; agora é necessário vender aos berros. A consequência é que mesmo as melhores gargantas forçam a voz e as melhores mercadorias não são oferecidas por orgãos enrouquecidos; já não há génio, nos nossos dias, sem clamor e sem rouquidão. Época vil para o pensador: devemos aprender a encontrar entre duas barulheiras o silêncio de que se tem necessidade e a fingir de surdo até chegar a sê-lo. Enquanto não se tiver chegado a isso, corre-se o risco de perecer de impaciência e de dores de cabeça.
Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"
Publicado por pns em maio 13, 2009 09:00 AMLembra-me da arte contemporânea. Nos dias atuais, berrar em brado maior apenas não é mais necessário para chamar a atenção (berrar já está até se tornando clichê),não sem antes também plantar bananeiras e rodopiar no ar, flertando ainda mais com a loucura.
Os critérios estão tão esgarçados que basta um macaco sentar à mesa e lançar tintas aleatoriamente para se fazer arte, arrematada aos milhões. Quem tem a necessidade artística e quem finge ter exclusivamente par a fama? Muitas vezes o artista está lá na sarjeta,penando entre as milhares de produções farsárias.
"Época vil para o pensador". Há! E ele nem chegou a ver o que o cubismo,dadaísmo e outros 'ismos' da vida iriam aprontar nas próximas gerações,deixando o osso carcomido para a gente.
Estamos já asfixiados por tanta produção descabida de propósitos maiores e que se avolumam mais e mais,numa sociedade que sucumbe ao lixo sem sentido.