Nunca cultives coisas absolutas, como a castidade absoluta ou a sobriedade absoluta: a maior força de vontade é a do homem que gosta de beber e se abstém de beber muito e não a daquele que não bebe de todo. O movimento antialcoólico é um dos maiores inimigos da vontade própria e do desenvolvimento da vontade. Castrar um homem «controlará» certamente os seus impulsos sexuais. Castrar a sua alma também fará o mesmo. A dificuldade é abster-se.
Deves criar um desejo de beber e de fumar e então fumar e beber moderadamente. Graças a este método, não só desenvolverás a tua vontade decisivamente, obrigando-a a impor limites aos teus impulsos, que é a função própria da vontade (e não a eliminação dos impulsos), mas também extrairás o maior prazer possível de beber ou de fumar, pois a Natureza concebeu as coisas de um modo tal que o maior prazer vem depois do maior poder, a temperança, e o sinal da normalidade é este.
Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais'
Publicado por pns em maio 14, 2009 12:20 PMSalomé já dizia que deveríamos ousar sempre. O artista de certa forma precisa pôr em risco toda a apatia, a alegria e a permanência em prol disto que é próprio (egoísta),sôfrego e humano. Para tal, delirar/desregrar os sentidos é uma premissa maior,pôr a vida em risco para chegar em algum lugar.
Feito o desregramento, o hábito (filho da carência/afeto) logo intercede a fim de normatizar-nos naquele novo meio. Do prazer da experiência a dor faz-se para que o ato (do fumo,da bebida,da droga) faça com mais intensidade do que o anterior. O ser torna-se desejo exclusivo, submetido,arruinado.
Entender que "o maior prazer vem do maior poder" não é fácil,creio. Um deslocamento pode avariar toda uma base e sair da base é um exercício dorido às tantas.
Arriscar?
Difícil escolher algo para nós, pobres órfãos do mundo.
Afixado por: Ehcsztein em maio 20, 2009 07:35 AM