outubro 13, 2009

A Obra Intemporal

Eis, pois, Valério, a razão por que te queria menos preso ao século em que vives; desejaria que a tua alma tivesse ressonância para tudo o que foi e sobre o passado baseasse a sua compreensão do presente e os seus sonhos de futuro; preso o homem nas cadeias do tempo e levado a fazer o seu trabalho por um íntimo, total e persistente impulso, a tarefa só poderá ser boa e útil se, resumindo em nós a história inteira, dermos ao presente o lugar limitado que tem de ocupar no desfile dos anos e virarmos ao futuro toda a nossa energia criadora; não te deixes impressionar pelo que surge de novo, não lhes dês um lugar absoluto, mas logo o afere pela escala que o passado te fornece; ser moderno não significa ignorar, como tu julgas, tudo o que forma o antigo; significa não deixar que perca a alma tudo o que de eterno lhe oferece o presente; e esse elemento permanente só o descobre quem não vive, exclusivamente, uma hora actual, quem não limitou a cultura ao derradeiro meio século e tem a sensibilidade desperta para todos os momentos da grande marcha humana.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

Publicado por pns em outubro 13, 2009 11:52 PM
Comentários

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Afixado por: yurrfqvwq em outubro 23, 2009 03:23 PM

A concepção de moderno para Agostinho (da Silva) é um tanto atípica e talvez contraditória em certos aspectos. O moderno,como muitos livros atestam, vive o estigma do tempo presentificado na medida em que exige uma preocupação pela preservação da memória, a fim de contornar a amalgamada e fragmentada quantidade de informações vigentes, entificando o próprio tempo. Ninguém, de fato, deseja esquecer. Todos usufruem de recursos eletrônicos para o armazenamento da memória, porém sabe-se lá a quem ou porque se dirige tal frenética preocupação. Há um descaso muito evidente dos presentistas em relação ao futuro já que estes mesmos possuem um horizonte de espectativa esvaziado de sentido. Pois bem, como pensar a criação nestes moldes? Ainda existe ou existirá alguma produção 'nova'? Espero que sim, caso contrário seria o fim da arte...
É verdade que a grande maioria dos modernos não desconsideram muitas coisas e talvez por isto pouco alarde fizessem para certos assuntos. Detêm a liberdade do olhar,apesar de pouco carregarem uma bagagem cultural diminuta em comparação com o século das letras (século XIX). No século da imagem, há a dispersão sobre as águas do vazio e o que efetivamente se fomenta em livros e ideias interessantes, rapidamente entram na poeira do esquecimento. É difícil pensar um sujeito nestas circunstâncias. Alguns téoricos consideram que o sujeito não é mais sujeito senão fluxo ou linhas, espasmos de vida. Como arquitetar uma obra intemporal nestas circunstâncias?

Afixado por: Phil Silva em novembro 11, 2009 02:39 PM
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